Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

20
Fev 05
Ignoramos quase em absoluto a quantidade de informação que consumimos como resultado de actividades organizadas de “lobbying”. Talvez por essa razão, a opinião pública não hesita em rotular negativamente esta actividade, associando-a a negócios menos transparentes.

Num mercado tão competitivo, um empresa ou organização não deve menosprezar a utilização de todos os instrumentos de que pode dispôr para fazer valer os seus legítimos interesses. Para o efeito, há que saber influenciar e lidar com as emoções, antever a reacção da opinião pública, dos adversários, dos concorrentes e dos decisores, e agir em conformidade. Neste contexto começa a ser mais decisivo saber utilizar os canais para fazer correr uma mensagem do que propriamente o conteúdo da mensagem. As razões de uma causa podem ser as mais sérias mas se não chegarem à opinião pública ou aos organismos decisores os resultadores dificilmente serão compreendidas e aceites.

“ Numa sociedade democrática é perfeitamente legítimo pressionar os poderes políticos em defesa de interesses específicos”. A opinião é de Martins Lampreia, reputado especialista de comunicação e também conhecido perito na prática de “lobbying”.
A origem da actividade e do conceito é no mínimo curiosa. Conta-se que o presidente dos Estados Unidos da América, Ulysses Grant, para fugir às confusões da Casa Branca refugiava-se no lobby do hotel Willard Intercontinental, para desfrutar de alguma calma e fumar charuto. Quando foi descoberto passou a ser procurado no lobby por aqueles que queriam influenciar as suas decisões. Grant apelidava-os de “lobbyists”.

Tecnicamente, «“lobby” pode ser definido como um conjunto de actividades que visam exercer uma pressão directa sobre os poderes públicos, legislativo e executivo, na defesa dos interesses de uma empresa, instituição ou sector de actividade» (Jornal de Negócios, 29/11/2004). Lobby implica pressão e, necessariamente, para a produzir, a gestão de grandes pacotes de informação, com o objectivo de facilitar decisões favoráveis.

Esta actividade é, naturalmente, levada à prática com maior intensidade junto dos centros de decisão. Por exemplo, Washington ou Bruxelas. Quer numa quer noutra cidade operam mais de 10 mil profissionais de “lobbying”, acreditados a nível do Congresso ou das instâncias de poder da União Europeia. Em Bruxelas, por exemplo, estão registados mais de três mil grupos de interesse. Portugueses, são muito poucos. Situação que não surpreende porque em Portugal o “lobbying” ainda não é uma actividade reconhecida, apesar de já existirem algumas empresas, designadamente na área da consultadoria, que se apresentam como especialistas em “lobbying” e “public affairs”.

A actividade de “lobbying” em países como o Reino Unido, Bélgica, Holanda, França, Alemanha e EUA é madura porque, desde logo, criaram regulação específica para controlar, promover e defender todos os intervenientes. Contudo, a ausência de legislação em Portugal não parece impedir que a actividade se desenvolva. Mas, como defende Martins Lampreia, um enquadramento jurídico dotaria o sector de maior credibilidade.
O “lobbying” é como um jogo de xadrez. As peças devem percorrer o tabuleiro de forma estratégia, pensada e sem precipitações, sem perder de vista o objectivo final. É, indubitavelmente, uma actividade realizada “bellow the line”.

A forma de actuar dos profissionais é fundamental para alcançar o sucesso e para obter os resultados solicitados pela parte contratante. É preciso vestir a pele da causa a defender e acreditar na missão. Para melhor desempenharem a sua missão, estes profissionais devem actuar em parceria com as direcções, com transparência e sem barreiras de comunicação, e assegurar que a gestão de uma campanha de “lobbying” mantêm uma estrutura coerente. No decorrer de um processo de “lobbying” pode ser preciso lidar com agentes económicos, com o poder político, com a opinião pública e até com os meios de comunicação social. Aliás, neste universo global, é necessário conhecer e analisar realidade locais, nacionais e internacionais, e os “mass media” são uma fonte preferencial, um elo de ligação e um agente difusor útil em qualquer processo de influência. A relação de um profissional de “lobbying” com os jornalistas deve ser exemplar, estritamente profissional, respeitando as exigêncis éticas e profissionais da sua actividade. Neste jogo de influências, importa respeitar em todos as ocasiões o papel do jornalista, porque a sua credibilidade como fonte é uma mais-valia. A deturpação da informação pode ser contra producente.

O “lobbying” implica sempre um processo de pressão, que pode ser realizado de forma directa e expressa ou indirecta através da manifestação das vontades de sectores de apoio. Como tal, a falta de regulação e de um código de conduta não contribui para credibilizar a actividade e a defesa das causas. Portugal podia seguir o exemplo de outros países e tirar partido dos códigos e princípios que regem a prática de Relações Públicas.
Para uma campanha de “lobbying” resultar é primordial saber cativar, criar laços, proporcionar empatias. A forma como as emoções devem ser compatibilizadas com o apelos à razão e aos factos é uma das condições para o sucesso de um “lobbying”.
Para além disso, é preciso ter consciência que as causas não se ganham unicamente na comunicação social ou através de eventos de propaganda, mas trabalhando nos bastidores, conseguindo apoios credíveis e utilizando processos informativos orientados e eficazes.
Um perito em “lobbying” será tanto mas eficaz quanto a sua capacidade de se envolver com a realidade e de chegar próximo de quem decide.
publicado por Marco Freitas às 20:04

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