Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

06
Mar 05
Estão aí tempos diferentes para a comunicação social nacional. A pedra de toque foi lançada por Vitorino na noite das eleições: habituem-se.
Finalmente assistimos à formação de um Governo sem as especulações habituais ou os jogos de cintura entre o Primeiro indigitado e a comunicação social. No entanto, tal facto comporta implícitos comportamentos e interesses que, no mínimo, devem ser questionados.
Se é verdade que houve um objectivo claro, e até louvável, de constituir uma equipa de Governo na mais pura das tranquilidades e sem pressões mediáticas, também é verdade que isso aconteceu porque a comunicação social cedeu, pela primeira vez em muitos anos, aos apelos e vontades de um Primeiro-ministro indigitado. Porquê?
Porque aceitaram que daqui para a frente irá ser assim? Porque, depois de terem protegido o líder vencedor das eleições durante a campanha, ainda permanece viva a onda de protecção, em nome de um bem maior que é o País? Porque o poder absoluto do Primeiro é mais forte de que esperavam?
Parece ser algo contraditório e estranho ver alguns comentadores e directores de jornais atacarem o líder do novo Governo pela política que está a seguir para a comunicação social, nada fazendo para efectivamente enfrentar essa postura? Afinal, onde param o direito à informação devida a todos os portugueses?
Está a comunicação social tão amputada da sua capacidade de reagir ao poder socialista? O que justifica este silêncio comprometedor?
Em menos de uma semana, foi possível verificar que uma das mensagens mais repetidas pelos jornalistas nos conteúdos noticiosos, independentemente do assunto em foco, foi o silêncio face às questões dos jornalistas e o desprezo pela sua presença.
O novo Governo tem o direito de querer orientar e controlar a sua estratégia de comunicação. A comunicação social tem o direito e o dever de respeitar essa política. Mas, para uma classe habituada a "furar" para conseguir notícias para abrilhantar as suas primeiras páginas ou a abertura dos noticiários o controlo é inaceitável. E se, numa primeira fase, a vontade do Primeiro foi respeitada, a verdade é que a passividade não vai durar muito mais tempo. A comunicação social é, por natureza, contra-poder, particularmente quando esse poder é hegemónico. Foi assim com Cavaco. Será assim com Sócrates? Veremos!
O que é indubitável é que até o leitor, ouvinte ou tele-espectador, mais distraído consegue ler nos espaços entre linhas que a cumplicidade da comunicação social com o poder político é um facto; e que os primeiros procuram, por vezes com vitórias retumbantes, orientar e ajudar a destituir e construir Governos. A questão que falta fazer é a seguinte: será que o tiro saiu pela culatra à comunicação social?
5 de Março de 2005
MPF
publicado por Marco Freitas às 16:42

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