Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

09
Ago 05
“Novo ataque a Marcelo” é o título de uma notícia do Expresso que relatava a tentativa de um jornalista de suspender “As escolhas de Marcelo” na RTP, através de uma providência cautelar, questionando o interesse editorial do programa e atribuindo interesses pessoais ao comentador. Curiosamente, ou não, na mesma página uma caixa anunciava a participação de António Vitorino, também na RTP, num programa em tudo semelhante.

O sugestivo título da supra mencionada notícia apelou à memória daqueles dias conturbados que envolveram a saída do comentador da TVI.

Decidi retirar do bau dos recortes o conjunto de textos sobre essa tempestade e tomei algumas notas na tentativa de perceber o que podemos aprender com a histeria gerada na altura. São notas simples e despretensiosas de quem espera mais deste País.


Primeira nota
Entre os dias 7 de Outubro e 13 de Novembro recolhi quatro dezenas de artigos e notícias sobre o tema, encontrados em jornais nacionais como o Público, o Diário de Notícias, o Expresso, o Diário Económico, o Independente, o Diário Digital, o Jornal de Notícias e o Semanário Económico. Também encontrei notícias em jornais regionais e, infelizmente, não tive capacidade de registar o que se disse nas rádios e nas televisões. Um turbilhão de ideias perspassou por todos os meios de comunicação, desde os mais tradicionais e locais aos mais tecnológicos e globalizados.

Segunda nota
Na sua esmagadora maioria, os títulos revelaram uma imaginação vértil no esforço de exprimir as perspectivas que surgiram sobre a questão Marcelo. Liberdade, golpes, circo, conspiração e censura são algumas das expressões que ficaram registadas nos títulos daquela altura e que traduzem a sofreguidão literária que imperou.
Registei alguns títulos com interesse: o Diário Económico de 7 de Outubro de 2004 questionava “Quanto vale o professor em audiências e receitas publicitárias”; o Independente de 8 de Outubro acrescentava “Para compreender Marcelo”; enquanto o Diário Digital do mesmo dia, apontava “Os censores de serviço”. Também no dia 8, o Público alertava para “O preço da liberdade” e para o “ Golpe de estado mediático”; o Expresso do dia nove do mesmo mês caracterizava a situação como “Um número de circo”.

Terceira nota
Como já é habitual, o painel de comentadores residentes lançou-se num frenesim de debates, alimentando discussões, gerando polémicas, estabelecendo regras para o jogo público da informação sobre o tema em particular e a comunicação social em geral. Uma vez por outra foram realmente interessantes, acutilantes, mas, no geral, traduziram os interesses instalados no sector da comunicação social. A lista de nomes registada é pequena em relação ao efectivo número de individualidades que de facto apareceram em toda a comunicação social. Eis alguns dos participantes activos daqueles dias frenéticos: Paulo Baldaia, Vasco Pulido Valente, Vicente Jorge Silva, António Luís Machado, João de Almeida Santos, Luís Delgado, Mário Bettendourt Resendes, Nuno Rogeiro, Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Francisco Teixeira da Mota, José António Saraiva, Clara Ferreira Alves.

Quarta nota
Passado este tempo todo, não tendo existido alterações substanciais no panorama da comunicação social nacional, como alguns dos comentadores então reclamaram, no meu ponto de vista, há um conjunto de questões que permanecem sem resposta: será que a maioria dos comentadores, em consciência, manteriam o que disseram sobre o tema; têm consciência que foram parte activa “do circo” que se gerou à volta de Marcelo? Terão a noção de que não contribuiram para o esclerecimento da “questão Marcelo” mas para o amamentar de egos mediáticos e manifestações intriguistas à boa moda da política e sociedade nacional? Não sabiam que tanto ruído em nada contribuiria para a solução das verdadeiras problemáticas associadas à questão Marcelo?

Quinta nota
João de Almeida Santos, no Diário Económico de 8 de Outubro de 2004, enfatizando que Marcelo não é jornalista e não faz jornalismo - logo não está obrigado ao regime do contraditório -, fez um breve registo da imprensa. Um exercício que vale a pena reproduzir:
No dia que se seguiu ao anúncio analisou sete jornais (Público, DN, JN, Correio da Manhã, 24 horas, A Capital e o DE). Destes, cinco fizeram manchete, seis dedicaram os editoriais e, no global, publicaram mais de 60 artigos, entre notícias, comentários e notas. Foram ocupadas cerca de 24 páginas completas, situando-se a esmagadora maioria dos textos nas primeiras 8 páginas.
Quanto às três televisões, RTP SIC e TVI, o autor sublinhou que até fizeram directos de Belém. No universo do online, realçou o artigo do Le Monde Online que dedicou 31 linhas ao assunto.

Sexta nota
Afinal o que se disse nesse período aparentemente tão conturbado da nossa vida nacional?!!!
a) A associação do poder mediático ao político e vice-versa foi uma das temáticas em maior destaque e Pacheco Pereira, entre muitos outros aspectos, frisou num dos seus artigos o seguinte: “Os políticos que estão neste momento no poder no PSD (no PS e no PP) fizeram uma parte muito importante da sua carreira na comunicação social. É normal que assim seja, porque hoje a maioria das carreiras políticas implicam uma relação muito próxima com os “media”. Não é uma regra absoluta, mas as excepções só a confirmam”.

b) Vasco Pulido Valente, à sua maneira, foi bastante longe nas suas críticas e análises. “Na própria TVI falta ainda Miguel Sousa Tavares (que suponho, e espero, marchará para casa pelo seu próprio pé), escreveu. E, não pareceu ter dúvidas quando afirmou que “desde que se estabeleceu a democracia em Portugal nunca se passou um caso destes”, rematando que “Marcelo é um aviso: se o liquidaram a ele, ninguém está seguro. Resta agora saber o que se vai seguir... A demissão de Marcelo ou serve para pôr um limite à interferência do Governo nos media; ou inaugura a corrupção final do regime.” Logo se vê que não tem dotes de adivinho!!!.

c) O editorial do DN do dia 8 de Outubro disse duas coisas fundamentais: “o princípio do contraditorio é um dever sagrado dos jornalistas quando elaboram notícias, mas que não é aplicado aos comentários de analistas”; e que “a tolerância é um valor fundamental em democracia e os políticos têm de saber suportar críticas”.

d)António Luís Marinho tocou num ponto chave: “A pressão do poder político sobre a comunicação social é tão velha como a existência de ambos. Ele tenta, ela resiste.” Sobre Marcelo disse que “é um prestidigitador e mestre na arte da manipulação. Os seus comentários, para além de exercícios de grande inteligência, eram verdadeiras lições de demagogia, a ‘arte de conduzir o povo’”.

c)E o que disse Vicente Jorge Silva? “Se uma voz dispõe do poder inusitado de fazer-se ouvir de forma excessivamente sugestiva e dissonante na aldeia portuguesa, os temerosos poderes públicos tocam a rebate contra o seu dom maléfico de influenciar e contaminar as almas. Como chegou essa voz a ter poder que lhe foi concedido e como chegou a vez de a quererem silenciar?”
Este comentador, disfarçando a sua opinião de uma ignorância útil, chamou ao tempo de Marcelo na TVI de “anormalidade” e atribuiu-lhe de epíteto de “formato de intervenção política televisiva sem paralelo conhecido na Europa e, até, no conjunto das democracias ocidentais, cujo protagonista goza do provilégio único de perorar – sem contraditório, acolitado por um reverente apresentador – durante a parte nobre do telejornal.

d) Apelando a alguma clarividência, Inês Serra Lopes, colocou o dedo na ferida. “Aposto que não existe um único “patrão” da comunicão que não se tenha sentido pressionado alguma vez na vida. A questão não está na existência ou inexistência de pressões. Elas são inevitáveis em Portugal, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Suécia e em todos os regimes, democráticos ou não. As pressões são inevitáveis sempre que se lida com o poder e se exerce com independência o direito e a liberdade de criticar o poder, de lhe apontar os vícios e as corrupções.”

e) Luís Delgado concorda quando diz que “a censura só existe na cabeça dos que a já fizeram e sabem como se faz, e numa democracia com milhares de jornalistas, centenas de orgãos de informação, sindicatos, Parlamento, Governo e Presidente da República seria obra digna de manual.” E passa ao ataque daqueles que alimentaram a teoria da conspiração: “Será que um Pacheco ou um Arons, quando dizem o que disseram, nunca perceberam que estão a ofender e a qualificar de mentecaptos e incapazes, centenas e centenas de jornalistas, que afinal se deixariam manipular, pressionar e vergar às ordens de um qualquer administrador ou director? Nao percebem que isso é um insulto grave? E os jornalistas, igualmente, também ainda não entenderam que estão a ser humilhados?”

f) Miguel Sousa Tavares, acossado ao que sucedeu com o seu parceiro no canal, e numa tentativa de marcar posição, proferiu algumas opiniões absolutamente estranhas e que confirmam o delírio que atingiu o País naqueles dias. Senão vejamos: “O grande mal português é que temos, verdadeiramente, poucos homens livres...Portugal não é, nunca foi, um país de homens livres, de homens verdadeiramente amantes da liberdade, para quem a liberdade seja tão importante como poder respirar.”
Posso até partilhar a ideia de que “a liberdade não se encontra ao virar da esquina – conquista-se, merece-se e alcança-se, por si próprio e individualmente, com riscos e com perdas, e não a coberto da protecção fácil das multidões ou das leis” e que “não há lei que possa declarar um homem livre”.
Mas, pareceu bastante menos lúcido e claramente tendencioso quando disse que “as nações de homens livres prosperam; as nações de gente subserviente definham: cada vez estamos mais próximos do México ou da Madeira e cada vez mais distantes da Espanha ou da Inglaterra.” Se Espanha e Inglaterra são assim países tão livres porque vivem aterrorizados com ataques bombistas? Esqueceu-se O ilustre comentador com certeza que esqueceu que a Madeira é, desde algum tempo, uma das regiões mais desenvolvidas de Portugal?

g) Sem surpresa, uma das opiniões mais clarividentes da época foi de José António Saraiva quando dizia que “numa sociedade de mercado, em plena Europa, nenhum governo tem possibilidade de controlar a informação. Dizer o contrário, gritar que a liberdade está em perigo em Portugal, é um insulto aos cidadãos dos países onde não há liberdade”.
E também questionava: “Mas quem é que, avctuando no espaço público, não sofre pressões?” A sua resposta diz tudo: “O problema não está, pois, nas pressões mas no modo como se lhes reage.”

Em conclusão, mesmo a esta distância, mantenho a dúvida: fomos mais longe com tanto histerismo? Resta-me a certeza que com um pouco mais de bom-senso, moderação e clarividência, a saída de Marcelo da TVI poderia ter permitido uma verdadeira discussão sobre o estado de coisas da comunicação social nacional. A verdade, é que esse nunca foi o tema-alvo daqueles dias arrebatados.
publicado por Marco Freitas às 21:38

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