Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

17
Fev 08
As diferentes problemáticas que afectam o bem-estar da população são geralmente abordadas
publicamente de uma forma avulsa porque dependem das agendas próprias dos partidos, de algumas organizações específicas ou do impulso da comunicação social.
As excepções são os períodos eleitorais. Nestas alturas, os protagonistas políticos e a comunicação social colocam em debate, num reduzido espaço de tempo, um amplo leque de questões públicas.
Os objectivos dos políticos e da comunicação social nestes períodos não são os mesmos mas
a amplitude daquilo que é discutido nos períodos eleitorais é da responsabilidade de ambos os
lados. Acontece, por vezes, que as campanhas são marcadas por um tema ou uma orientação temática mais vincada. Era o que se poderia esperar da campanha que resultou da demissão de Alberto João Jardim. Parece ser consensual que foi a polémica Lei das Finanças das Regiões Autónomas que provocou, de forma aberta e efectiva, a demissão de Jardim, ainda que associada a esta demissão tivessem existido outros objectivos políticos e uma agenda própria do presidente do Governo Regional da Madeira.
A partir desse momento histórico seria expectável que a pré-campanha e, particularmente,
a campanha fosse muito vinculada às questões económicas, designadamente aquelas relacionadas com a LFRA. A análise efectuada até ao momento diz-nos que na pré-campanha este foi um dos temas em foco mas que no tempo de campanha propriamente dito a temática passou ao lado de alguns partidos e também da comunicação social. Assistimos à discussão dos temas habitualmente debatidos em campanhas políticas. Ou seja, quase todos os que dizem respeito à vida diária e palpável dos cidadãos. Por outras palavras, se não fosse o ambiente escaldante que marcou o período em questão, fruto de várias condicionantes como a escalada do clima desagradável entre o Governo da República e o Governo regional, a agressividade discursiva entre os partidos na região, o longo período de pré-campanha que se
iniciou praticamente com o pedido de demissão de Jardim, a falta de preparação dos partidos com a consequente ausência de estratégias de propaganda bem pensadas e estruturadas (alguns dos cartazes criados foram francamente infelizes) e a avaliar pelos temas e soluções que os partidos colocaram na praça pública teríamos tido uma campanha política absolutamente normal.
O enfoque dado pela imprensa nacional às eleições na Madeira foi mais um factor de
pressão e de diferenciação relativamente a anteriores actos eleitorais na Madeira.
No plano da análise que efectuamos à comunicação social regional diária sobre as eleições
antecipadas na Madeira, o *astrisco* debruçou-se, também, sobre as temáticas e as polémicas que marcaram a campanha, com especial ênfase para o dia 23 de Abril, data que assinalou o início da campanha na comunicação social impressa. Um olhar sobre os artigos desse dia traduz muito do que viria a acontecer durante a campanha e resume o que se havia passado durante a pré-campanha (que para todos os efeitos começou logo que Jardim se demitiu). A primeira página do dia 23 no Diário de Notícias da Madeira não deu relevo específico ao início do tempo de campanha, nem mesmo com uma chamada, mas não deixou de noticiar sobre a segunda volta das eleições francesas.
Apesar disso, o primeiro “caso de campanha” está na primeira do dia 23 e decorreu de um incidente começado na pré-campanha. É o caso que ficou conhecido como “a excursão de Santo António” do dia 25 de Abril. O passeio que estava a ser organizado pela junta de freguesia para celebrar o 25 de Abril e para o qual Alberto João Jardim confirmara a sua presença deu polémica quando a Comissão Nacional de Eleições o considerou “pouco oportuno”, já que aconteceria em plena campanha. Marcelino de Andrade, presidente da junta de Freguesia, acatou a decisão, acusou o PS de denunciar o passeio e viu ser exposta uma tarja perto da junta atacando os "responsáveis" pelo sucedido. Apesar da posição da CNE, o passeio realizou-se mas com o apoio financeiro de empresas locais, como mais tarde também foi notícia. De certa forma, a não referência explícita ao novo período do processo eleitoral e a chamada à primeira página de um tema quente da pré-campanha revela que não houve variação de maior nas diferentes partes do processo eleitoral desde que Jardim se demitiu. No fundo, os partidos entraram em campanha desde a primeira hora.
A comunicação social reflectiu um pouco esta continuidade apesar de ter criado nas suas páginas rubricas específicas para definir o processo eleitoral. Fê-lo durante a pré-campanha e também durante a campanha. No período em questão, o DNM criou um espaço específico que denominou de “campanha eleitoral” onde inseria os artigos directamente relacionados com as acções de campanha. Para além disso, manteve um espaço de índole mais geral a que chamou de “Eleições regionais 2007”, onde cabia muitos assuntos relacionados com as eleições mas paralelos à agenda dos partidos em campanha. O DNM criou ainda dois espaços de comentário sobre os temas da campanha, um dedicado aos partidos e outro a líderes de opinião. No primeiro
caso estamos a falar da rubrica “Convém esclarecer” que, em suma, era uma oportunidade para
os partidos explicarem em pormenor temas e propostas que apresentaram. No segundo caso,
era um espaço dedicado a uma breve opinião sobre um tema, efectuado por líder de opinião ou
alguém ligado a organizações representativas na sociedade regional. Outro dado interessante foi
a criação de logótipos próprios para assinalar as páginas que diziam respeito à campanha. Uma
urna de voto com a bandeira da Madeira e uma mão a simbolizar o gesto de voto foi o símbolo
que o Diário escolheu para apresentar no topo das páginas e em algumas caixas de notícias.
Em relação à pré-campanha, o discurso dos partidos não trouxe inovação de monta. Talvez uma
maior agressividade discursiva e de tom, comum nos últimos dias que precederam à decisão suprema do eleitorado. Ainda assim, o primeiro dia de campanha, com reflexo na imprensa, assinalou algumas situações dignas de registo. Por exemplo, Jardim alertou para o facto do país estar atento as eleições na Região. Talvez pelo impacto mediático, talvez por ser as únicas eleições no país à data ou, simplesmente, por ser na Madeira, a ilha que desafia o território continental e, neste caso o Primeiro-Ministro de Portugal.
Por isso, Jardim atacou desde logo Sócrates – alimentando também a sede de polémica da imprensa nacional – dizendo que a sua queda começava na Madeira, que a LFRA foi a razão da sua demissão e que o PSM traiu a região. Para AJJ, Sócrates era o adversário a vencer e não Serrão. Se para Jardim, o processo eleitoral era tão importante que justificava que as juntas de freguesia emitissem no dia das eleições cartões de eleitores, "até perto das mesas de voto”, para
Serrão, por outro lado, a campanha merecia ser desvalorizada pois na sua opinião “só vale para
confundir a cabeça dos madeirenses”. Confusão para a qual, segundo aquele, muito contribuiu
Jardim já que este “escondeu a realidade do povo madeirense” com a sua demissão.
A opinião de Idalina Perestrelo da Quercus-M, que acusou os partidos de esquecer as questões ambientais durante a pré-campanha, porque a LFRA “monopolizou os interesses dos
partidos”, parece contradizer Serrão... A posição dúbia ou de neutralidade do CDS fica
patente também no primeiro dia de campanha. Para além de dar conta do primeiro acto público
de Portas depois de ser reeleito internamente líder do partido, a imprensa reflectiu o ataque do CDS ao PS nacional e ao PSD regional, acusando-os de “partidarização das relações entre a Região e a República”, prejudicando a Madeira. Se eventualmente podemos considerar as razões do CDS sobre esta disputa partidária, a verdade é que numa batalha política quem não toma partido acaba por gerar indecisão nas hostes dos seus votantes. O CDS pagou caro a sua posição neutral, uma estratégia que não favorece um partido pequeno. Ao longo da campanha todos os partidos tiveram um idêntico espaço editorial nas páginas de política do DNM e, particularmente, naquelas referentes à campanha. Os títulos e os conteúdos fizeram a diferença em termos de visibilidade na página. No dia 23 de Abril, o DNM naturalmente focou os outros partidos. O BE partiu ao ataque no primeiro dia de campanha e, para além de se ter gabado de que tinha "obra feita nas conquistas das mulheres” – provavelmente, para mitigar o caso Violante Matos - pediram um “forte grupo parlamentar”. A CDU foi à porta de uma igreja, um acto tantas vezes criticado ao PSD, dizer de sua justiça. Por seu turno, o Movimento Partido da Terra, um projecto “imaturo” em batalhas eleitorais na Região, começou por realçar a importância do acto eleitoral sob uma nova lei que cria um único círculo eleitoral. Um tema que a comunicação social retomaria mais vezes. As campanhas são férteis em promessas, umas claras, outras encapuçadas, sob vários argumentos entre os quais “O não prometo mas faço”. Sobre isto, uma das promessas que deu que falar foi a da construção do estádio do Marítimo e do novo hospital. Jardim reconheceu que ambos os projectos poderiam precisar de “engenharia financeira”. Para concluir a cobertura temática do DNM no primeiro dia de campanha na imprensa notemos a temática dos custos de campanha. Uma pesquisa ao passado diria que em todas as campanhas este é um tema recorrente na comunicação social... Contudo, quando a razão que provocou eleições antecipadas foi ausência de dinheiro, o tema ganha indiscutivelmente outra relevância.
Depois de olharmos para o dia 23 do DNM podemos compará-lo com o do Jornal da Madeira. Para além da natural e óbvia semelhança de conteúdos nas notícias que correspondem às acções de campanha dos partidos, talvez seja de começar por realçar que também o Jornal não fez referência directa ao primeiro dia de campanha na primeira página. Ou seja, aparentemente não houve diferença entre o dia antes da campanha e o dia de campanha (com excepção da publicidade partidária nas últimas páginas dos matutinos). Um pouco como aconteceu em toda a campanha, a primeira página do JM no dia 23 valorizou uma inauguração de Jardim e toda a sua envolvente, acompanhada de uma foto a toda a largura da página. O recurso ao cartoon para atacar os adversários políticos foi comum a todo o processo eleitoral e o dia 23 não foi excepção. O jornal não tem páginas de política. Contudo, no período de campanha criou a rubrica “Legislativas 2007 – Campanha”, disseminando as restantes notícias de foro político nas páginas do regional, designadamente as inaugurações de Jardim. A par com o DNM também criou um logótipo para identificar mais claramente as páginas referentes às acções de campanha. Este "logo" tinha o nome da rubrica sobre uma imagem da bandeira da Madeira e uma mão a votar. É um conceito idêntico ao do Diário e foi utilizado na cabeça da página. É interessante registar a criação de um espaço de “agenda” que teve como função dar conta das movimentações dos partidos em campanha. A este nível o DNM optou por fazer notícias breves e sem nenhum enquadramento específico. Em termos de discurso político, o Jornal salientou que Serrão se apresentava como alternativa a um “poder velho e gasto” e referia-se à promessa de criação de 8 mil postos de trabalho. Uma matéria que seria motivo de discussão e até de alguma descrença pública. Por sua vez, Jardim definiu a campanha como uma “batalha” e recordou o facto de, aparentemente, o PS ter sido desacreditado tanto por Cavaco Silva como pelo partido a nível nacional. A importância do círculo único foi valorizada pela CDU nas páginas do Jornal. Por fim, a primeira edição do Jornal da Madeira no tempo
de campanha inclui também dois artigos de opinião que, não só causaram alguma polémica pelo
facto dos seus autores serem membros activos em campanha como dois distintos líderes do PSD
que gozaram de muitas oportunidades para defender os seus pontos de vista nas páginas deste
jornal (que não apresentou um único artigo de opinião de uma voz dissonante).
publicado por Marco Freitas às 10:49

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