Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

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Abr 08
Um congresso partidário, de qualquer partido, devia ser sempre um momento importante para a sociedade porque as decisões e estratégias que resultam de tais reuniões magnas certamente influenciam a política global desenvolvida pelo partido e, consequentemente, a vida das populações em redor da sua esfera de influência. Isto é mais verdade quanto maior a relação do partido com a governação de uma localidade. Actualmente, em Portugal, temos como exemplos, entre muitos outros casos nas autarquias, o PSD-Madeira e do PS-Nacional e açoriano.
Independentemente do ambiente político e partidário que envolve um congresso, o mais importante são os seus resultados, designadamente ao nível do que o partido pensa oferecer à população. Contudo, não raras vezes, são as intrigas políticas e partidárias que despertam a curiosidade, que atiçam as más-línguas e que fazem mover a comunicação social especializada no sector.

O que se passa no interior de um partido deve ser gerido dentro do partido – o direito à privacidade está consagrado na lei e nas regras socialmente definidas. Mas, os partidos não podem nem devem esquecer os milhares de eleitores que lhes garantem vitórias eleitorais – e por inerência tantas outras coisas – porque esses precisam de saber, têm o direito de saber o que move actualmente uma organização partidária e como pensam os diversos sectores da res publica.

Podemos incluir neste quadro de divulgação pública as guerrilhas internas? Se se considerar que as suas consequências mudam substancialmente a vida dos eleitores: Claro! Estes têm direito a conhecê-las.


Vejamos o caso actual do PSD-M.
Dizia-se que este seria um dos mais importantes congressos para o PSD-M. Certamente (!), mas acho que deveria ser interpretado como o mais importante congresso para os madeirenses.
As guerrilhas têm piada para quem está de fora a assistir “na desportiva”, através da comunicação social, para os fãs da política e, naturalmente, para os participantes do Congresso… Contudo, estas batalhas internas raramente asseguram o esclarecimento necessário sobre os políticas que o partido deve prosseguir para o desenvolvimento de uma localidade, porque a concentração dos protagonistas está fixada em “coisas menores”, mais individualizadas e personalizadas, digamos que ao nível dos interesses pessoais. Para os eleitores não basta ser-se conhecido publicamente para se saber qual o projecto estratégico que um potencial governante (e no PSD para mim são todos) tem, por exemplo, para a Madeira.

O partido em questão tem muito que fazer internamente mas não pode descurar a sua missão de responsabilidade social. O PSD-M tem praticamente todos os méritos sobre as políticas de desenvolvimento que a Madeira realizou e, simultaneamente, toda a responsabilidade de assegurar o melhor futuro da Região. Existem poucos madeirenses que já não estejam a sentir o peso da crise económica (A LFRA ou mesmo a diminuição de fundos não têm a culpa de tudo).

Como tal, este conclave social-democrata, para além das questões da sucessão e da organização interna do partido, deveria ter considerado como trave mestra a definição e anúncio de um documento de fundo sobre os vários sectores da sociedade, as problemáticas que os atingem e as respectivas e necessárias soluções, estabelecidas com seriedade, realismo e inovação. Nem que para isso fossem precisos mais dias de trabalho. É porque já basta de falar na necessidade de um novo ciclo. Estamos a vivê-lo e, porém, não vislumbramos uma estratégia de longo prazo para a manutenção das actuais condições de desenvolvimento da Região.

Dito isto, importa ainda considerar outro pormenor.

Um dos aspectos fundamentais deste tipo de encontro é a sua comunicação com a Opinião Pública que, normalmente, é feita através da comunicação social. Sobre estes encontros, refira-se, a comunicação social apresenta um sentido aguçado para encontrar as fraquezas dos protagonistas. Mas, no fim de contas, entre os partidos e a comunicação social há geralmente um encontro de interesses que acaba por resultar, na prática, num grande espaço mediático sobre as mais diversas incidências do Congresso.

Para a opinião pública esta é a forma possível de ficar a conhecer o que se passa entre aqueles que aspiram à governação, apesar dos partidos terem outros meios para comunicar com os eleitores. O seu uso é muitas vezes defeituoso e ineficaz porque, na generalidade, são limitados ao nível dos conteúdos, orientados e tendenciosos, consequentemente não beneficiam da credibilidade fornecida pelos meios de massas. Afinal é o que os políticos e os partidos procuram quando tentam capitalizar a presença dos media.

Por isso, a comunicação social é, sem margem para dúvida, o único meio útil para percebermos, com um maior nível de isenção e percepção, o que se passa num congresso. Por vezes, desempenham um papel menos pró-activo e formador quando insistem em focar nas tricas partidárias internas relevando para planos inferiores as razões pelas quais os partidos deviam existir e trabalhar: a estabilidade social e o bem comum. Aliás, comungo da ideia de que este tipo de abordagem “politiqueira” também contribui para o enfraquecimento da actividade política e para o descrédito de muitos dos seus actores.

Como tal, por todas as razões que temos invocado, a decisão do PSD de fechar a fase de debate à comunicação social é questionável, apesar da legitimidade que assiste ao partido pelo facto de se tratar de uma reunião interna, onde se discutem estratégias políticas contra ou a favor de determinadas políticas, partidos e lobbys.

De facto, para o partido poder discutir mais à vontade as questões que o apoquentam, o fecho à comunicação social é uma medida útil. Tenho, no entanto, dúvidas que tenha sido esta a principal razão para a opção do partido. As questões lançadas por alguns jornalistas sobre esta situação fazem todo o sentido. Ainda assim, se atendermos ao funcionamento humano nestas situações, temos dúvidas que vingue a cultura do segredo ou de secretismo à moda dos conclaves romanos. Ou seja, aos poucos os jornalistas terão as fontes necessárias para conta o que se passou no congresso.

Sou de opinião que esta estratégia só contribui para o fluir das intrigas, das interpretações enviesadas e para a especulação, em suma, tudo aquilo que o partido dizia querer evitar. Por outras palavras, com um pouco mais de trabalho e alguma criatividade, a comunicação social só terá a ganhar com esta decisão do PSD pois terá espaço para congeminar os cenários que melhor se enquadrem à cena do momento.

Diga-se, ainda, que este tipo de cultura de secretismo não favorece a transparência, conceito tão necessário nos dias de hoje aos partidos, porque os eleitores, influenciados pelo espírito do consumidor exigente, estão mais atentos.

Aproveitando o precedente aberto pelo PSD, talvez fosse altura para a comunicação social regional também começar a dizer não aos políticos, aos partidos e as actividades meramente propagandísticas que costumam cobrir à luz do principio tácito de que se deve cobrir tudo o que os partidos fazem para evitar perder declarações importantes.

Há muito que a comunicação social selecciona as notícias do foro económico, social e cultural, um comportamento editorial que não encontra paralelo na política. Ora, aproveite-se o precedente aberto pelo PSD para dizer que nem sempre a comunicação social está disponível e que, em determinados casos, determinou mesmo que a iniciativa partidária era irrelevante, redonda e sem novidade.


O *astrisco*
publicado por Marco Freitas às 11:34

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