Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

23
Jan 09
A Madeira precisa de uma excelente campanha de lobby para mudar e melhorar a forma como é vista no espaço nacional e nos mercados internacionais. Uma campanha que contemple os mais diversos sectores da vida regional, desde a política à economia e à cultura.

Este tema - e a certeza desta necessidade regional – é motivo de interesse e de debate a espaços, sempre que algum acontecimento nos alerta para esta situação. Desta vez foi a notícia de que o Governo dos Açores lançou um concurso para contratar agências de comunicação e de lobbying para exercerem a sua actividade em prol dos interesses dos Açores junto das entidades europeias.

A iniciativa açoriana é de louvar porque, como é sabido, no universo da Comissão e de todos os organismos que orbitam os corredores que incorporam a União Europeia tudo é conseguido na base da permanente negociação… Como tal, o desenvolvimento estruturado de campanhas de comunicação e de lobbying são imprescindíveis para posicionar interesses e forçar decisões favoráveis.
Os Açores fazem esta aposta na EU porque já conquistaram o espaço nacional. A sua imagem global junto dos portugueses é pacífica, uma situação que é resultado de vários factores, sendo de salientar a actual conjuntura política, as apostas de comunicação turística e, talvez a mais forte razão, o facto de existir um arquipélago como o da Madeira que nos mais variados níveis assume e encarna o contencioso com o Continente, nomeadamente no plano da política partidária e na luta pela Autonomia.

De facto, a Madeira tem uma situação mais periclitante, em particular, no espaço nacional. Ao invés dos Açores, nos mercados internacionais, a RAM já goza de um reconhecimento invejável, às vezes até ultrapassando a imagem negativa do próprio país e compensando-o positivamente. Isto sucede tanto ao nível do turismo como à escala do mundo dos negócios internacionais de topo.

A certeza de que a Região precisa de uma percepção mais favorável no espaço nacional não é uma prerrogativa minha. Faço eco, por exemplo, de opiniões de altos dirigentes do partido líder na Região e do próprio Governo Regional. Guilherme Silva, respeitado membro das cúpulas do PSD local, já o afirmou e, num encontro com a JSD-M, o Vice-Presidente do Governo assumiu esse imperativo de mudar a imagem que os portugueses têm da Região. Lia-se no Jornal da Madeira de Outubro de 2006: “O vice-presidente do Governo Regional considerou ontem que existe um défice de comunicação entre o Governo Regional e a opinião pública do Continente” e “admitiu que esta tem sido uma das falhas do executivo regional”.

Há um conjunto de situações, de pessoas e organizações responsáveis pela deterioração da imagem da Madeira no espaço nacional. Independentemente dos efeitos das acções externas ao meio regional, esta imagem negativa é um facto e existem fortes responsabilidades da própria governação regional, designadamente ao não conseguir criar um espírito de unidade interno, nos diversos patamares da nossa sociedade e nas mais variadas organizações, desde a política à economia, para a construção de uma ideia da Região e dos próprios madeirenses muito melhor no espaço nacional. Faz sentido um português, seja ele de onde for, pensar e acreditar que a Região vive à custa dos seus impostos e do seu dinheiro?


A nossa Região não poderia fazer um uso adequado das estratégias de lobbying?
Não haverá na Madeira um interesse generalizado em conseguir as melhores condições possíveis para garantir um desenvolvimento sustentado, eficaz e capaz de gerar resultados muito positivos, tanto a nível económico e social?
Às vezes parece que sim, outras nem por isso, na essência, porque não encontramos nas estruturas sociais uma necessidade aguerrida de defesa dos interesses gerais da Região.
A Madeira tem uma credibilidade e imagem conquistadas com esforço e competência, e que estão presentemente postas em causa por um lobby nacional, de índole política.
O que legitima este movimento que coloca em causa o futuro da Madeira que não valide a criação de um organismo regional para defender os interesses da população da Madeira, muito além das organizações de cariz político? O sucesso de um lobby desta natureza depende do consenso interno gerado e da capacidade em transformar as diferenças e a diversidade de perspectivas numa receita de sucesso que possa confrontar os Governos nacionais e posicionar a Região junto da entidades internacionais e nos mercados.
Se para isso é fundamental traçar objectivos radicalmente exigentes...que haja coragem para vincar que a nossa sociedade não pode ser hipotecada à custa de teimosias e vinganças políticas e que os madeirenses merecem poder escolher o modelo para construir o seu futuro. A aparente estabilidade em que vivemos tem funcionado como um sonífero que bloqueia a percepção da necessidade de estruturar um lobby global a favor da Madeira.


A actividade de lobbying

“Numa sociedade democrática é perfeitamente legítimo pressionar os poderes políticos em defesa de interesses específicos” A opinião é de Martins Lampreia, reputado especialista de comunicação e também conhecido perito na prática de lobbying.
Tecnicamente, “lobby” pode ser definido como “um conjunto de actividades que visam exercer uma pressão directa sobre os poderes públicos, legislativo e executivo, na defesa dos interesses de uma empresa, instituição ou sector de actividade”
Num mundo tão competitivo, uma empresa, organização, país ou região não deve menosprezar a utilização de todos os instrumentos ao seu dispor para fazer valer os seus legítimos interesses. Há que saber influenciar e lidar com as emoções, antever a reacção da opinião pública, dos adversários, dos concorrentes e dos decisores e agir em conformidade.
Esta actividade é naturalmente praticada com maior intensidade nos centros de decisão como Washington e Bruxelas. Quer numa quer noutra cidade estão acreditados mais de 10 mil profissionais de lobbying. Em Bruxelas, por exemplo, estão registados mais de 3 mil grupos de interesse. Portugueses são muito poucos. Para manifesto azar do nosso País esta é uma actividade pouco valorizada e ainda por reconhecer.
Comparo o lobbying a um jogo de xadrez, onde as peças devem percorrer o tabuleiro de forma estratégica, pensada e sem precipitações para não perder de vista o objectivo almejado.

Em Portugal

Que se saiba, pouco mais do que 5 agências de comunicação estão aptas e interessadas em realizar esta actividade de forma transparente.
Em Portugal não existe legislação que regulamente a actividade e, pior do que isso, parece haver pouco interesse em criar essa legislação, mantendo, na prática, a existência desta actividade sob um manto de secretismo muito pouco útil à verdade política e à acção pública dos mais altos responsáveis deste país.

Uma empresa portuguesa, no início de 2007, deu a conhecer ao Parlamento nacional a sua intenção de ter acesso directo aos deputados. Luís Paixão Martins, responsável da empresa diz que “a ideia é estar mais perto do poder, para melhor o compreender e acompanhar”. Para este especialista e a sua empresa, todo o processo legislativo seria mais claro e de fácil percepção. Ao que se sabe, não existiu até hoje qualquer resposta da AR a este pedido original. Até porque os grupos parlamentares não se mostraram muito abertos à inovação. Uma das razões era porque as agências de comunicação iriam ter acesso aos mesmos lugares que os jornalistas. Uma desculpa esfarrapada e cómica porque a relação entre os sectores extravasa o Parlamento.



A origem do conceito

A origem da actividade e do conceito é no mínimo curiosa. Conta-se que o presidente dos Estados Unidos da América, Ulysses Grant, para fugir às confusões da Casa Branca refugiava-se no lobby do hotel Willard Intercontinental, para desfrutar de alguma calma e fumar charuto. Quando foi descoberto passou a ser procurado no lobby por aqueles que queriam influenciar as suas decisões. Grant apelidava-os de “lobbyists”.

A própria definição técnica do conceito não engana. Fazer lobby implica fazer pressão e, necessariamente, para a produzir, é fundamental cuidar de uma gestão de grandes pacotes de informação, de estabelecer redes de contacto e da criação de empatias sólidas, sustentadas na verdade dos factos, com o objectivo de facilitar decisões favoráveis.

A actividade de “lobbying” em países como o Reino Unido, Bélgica, Holanda, França, Alemanha e EUA é madura porque, desde logo, criaram regulação específica para controlar, promover e defender todos os intervenientes. Maturidade que decorreu também de uma abertura séria e transparente à actividade e ao seus objectivos. Apesar de não encontrarmos esta postura no nosso país e da ausência de legislação em Portugal o desenvolvimento da actividade não está travado, muito em particular no âmbito da actividade política. Mas, como defende Martins Lampreia, um enquadramento jurídico dotaria o sector de maior credibilidade.

A forma de actuar dos profissionais é fundamental para alcançar o sucesso e para obter os resultados solicitados pela parte contratante. É preciso vestir a pele da causa a defender e acreditar na missão. Para melhor desempenharem a sua missão, estes profissionais devem actuar em parceria com as direcções, com transparência e sem barreiras de comunicação, e assegurar que a gestão de uma campanha de “lobbying” mantêm uma estrutura coerente. No decorrer de um processo de “lobbying” pode ser preciso lidar com agentes económicos, com o poder político, com a opinião pública e até com os meios de comunicação social. Aliás, neste universo global, é necessário conhecer e analisar realidade locais, nacionais e internacionais, e os “mass media” são uma fonte preferencial, um elo de ligação e um agente difusor útil em qualquer processo de influência. A relação de um profissional de “lobbying” com os jornalistas deve ser exemplar, estritamente profissional, respeitando as exigências éticas e profissionais da sua actividade. Neste jogo de influências, importa respeitar em todas as ocasiões o papel do jornalista, porque a sua credibilidade como fonte é uma mais-valia. A deturpação da informação pode ser contra producente.

Volto a frisar que o “lobbying” implica sempre um processo de pressão, que pode ser realizado de forma directa e expressa ou indirecta através da manifestação das vontades de sectores de apoio. Como tal, a falta de regulação e de um código de conduta não contribui para credibilizar a actividade e a defesa das causas. Portugal podia seguir o exemplo de outros países e tirar partido dos códigos e princípios que regem a prática de Relações Públicas.
Para uma campanha de “lobbying” resultar é primordial saber cativar, criar laços, proporcionar empatias. A forma como as emoções devem ser compatibilizadas com os apelos à razão e aos factos é uma das condições para o sucesso de um “lobbying”.
Para além disso, é preciso ter consciência que as causas não se ganham unicamente na comunicação social ou através de eventos de propaganda, mas trabalhando nos bastidores, conseguindo apoios credíveis e utilizando processos informativos orientados e eficazes.
Um perito em “lobbying” será mais eficaz quanto a sua capacidade se envolver com a realidade e de chegar próximo de quem decide.

Marco Freitas
publicado por Marco Freitas às 21:39

O blog parece estar com uma imagem mais moderna...
Marco Freitas a 27 de Janeiro de 2009 às 15:54

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Janeiro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
14
17

18
19
20
21
22
24

25
26
27
28
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Sobre mim e autores
pesquisar
 
links
blogs SAPO