Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

04
Nov 08
É certo que este comentário parece ser tardio… Mas não o é, na essência, porque reflectir sobre os efeitos de um processo eleitoral, sobre os seus resultados e efeitos futuros, requer alguma parcimónia… Até porque o tema que propomos para reflexão ultrapassa a mera interpretação da vitória ou derrota de um partido. Falamos, claro está, do impacto da abstenção nas eleições dos Açores.

De facto, em relação a estas eleições, os seus resultados e respectivas reacções na comunicação social (a perspectiva em foco e que nos interessa no nosso blog), há um conjunto de aspectos que merecem comentário e uma abordagem muito mais ampla no fórum público que são os mass media.

O primeiro aspecto digno de realce é, sem dúvida, o nível de abstenção registado neste acto eleitoral: 53,24%. Por isso, antes de mais, diga-se que importa corrigir publicamente o ranking dos vencedores destas eleições: os Abstencionistas em primeiro lugar e só depois o PS-Açores.
Este é um indicador que suscita desde logo uma interrogação: será que a classe politica portuguesa ainda não percebeu até que ponto são incapazes de cativar os eleitores?

Vem aí um ciclo agitado de eleições. Serão precisos três vitórias da abstenção - porque nos Açores quem realmente venceu foram os abstencionistas?

A avaliar pela reacção dos políticos este indicador não deverá ser levado a sério. Os partidos teimam em ignorar o facto de haver tanta gente sem vontade de ir às urnas? Apontam como bode expiatório destes resultados, os “eleitores fantasmas”, por sinal, uma situação que se arrasta a largos anos, sabe-se lá porque e à guisa de que interesses?

Pensamos pois ser legítimo perguntar que os partidos receiam assumir o seu fracasso como organização? De aceitar a incapacidade para contribuir para a sociedade como está inscrito nos seus estatutos?

Ou, olhando para outra perspectiva, a cegueira do poder, das cadeiras dos governos e dos parlamentos, é tanta que esqueceram a representatividade social daqueles que não votam?

Afinal, também não é função dos partidos olharem por aqueles que se recusam a acreditar nestas organizações?
Comungo da ideia de que nem os Governos nem as oposições devem agir em função daqueles que votam…

Nas eleições açorianas, em segundo lugar ficou o PS-A com 49,6% dos votos. O que lhe garantiu uma maioria absoluta… E milhões de razões para festejar… Depois de três mandatos, César enfrentam mais quatro anos de governação. Isto significa que o PS-A corre o risco de ficar no Governo dos Açores mais de 15 anos e de encaminhar-se para a inevitável comparação com o PSD-M e o seu líder.

Aliás, começa a ser interessante olhar para o PS, tanto a nível nacional como na Madeira, e para o seu posicionamento face às vitórias do partido nos Açores por comparação com as vitórias do PSD na Madeira.

Basta olhar para estas eleições no Açores. Que razão foi suficiente para que Sócrates – o Secretário – Geral do PS (não se façam misturas com o Primeiro-Ministro) tenha vindo a público comentar as eleições e, no ano passado, no caso da Madeira, não o tenha feito? Mais, porque é que os três mandatos de César, mais este que conseguiu - e bem -, não configuram um “risco à democracia”, um símbolo de “deficit democrático” e, como tal, uma governação a criticar? Pacheco Pereira chamou a atenção para esta questão num dos programas da Quadratura mas, a meu ver, poderia ter ido mais longe…

Serão aquelas maiorias mais democráticas do que as da Madeira? Eventualmente… Tudo depende dos olhos de quem as analisa.

Esta vitória do PS-A – que não sofre contestação por ser mais do que merecida - é no dizer de Sócrates um princípio de alguma coisa muito positiva, leia-se a primeira grande vitória das três que se seguirão em 2009. Ora, podem dizer o que quiserem, mas é difícil negar que Sócrates fez uma leitura nacional, ainda que ténue, das eleições nos Açores. Eu diria que tem toda a legitimidade em fazê-lo pois muito tem contribuído para o seu sucesso do seu partido naquela região portuguesa…

Tornou-se então muito mais fácil perceber porque é que o PS atribuiu a uma figura menor a sua reacção aos resultados da Madeira. Mas, são precisamente estas trocas e baldrocas da classe política que contribuem sobremaneira para a queda da sua credibilidade.

Uma última nota, para se dizer que às vezes para se perceber a política portuguesa é mais importante atender às análises dos partidos e dos comentadores do que propriamente aos resultados.
Para além dos habituais discursos, das chapas três do politicamente correcto, houve um comentário que merece ser elevado à categoria de “extraordinário”. É aquele que se refere ao facto dos Açores ter agora – sublinhe-se, só agora – uma maior representatividade no seu parlamento… A situação, em si mesma, merece, claro está, uma nota positiva.
Mas, em prol da verdade e da lisura de pensamento e informação, também caberia dizer nos comentários lançados que as eleições da Madeira, no ano passado (e não só), geraram um parlamento multifacetado, num sistema de circulo único, tendo permitido o acento de 6 partidos no parlamento regional. Ou seja, não foi preciso criar artificialmente uma modalidade de votação (o círculo de compensação) para promover a democracia com fizeram os Açores. Cada cabeça sua sentença. A verdade é que os resultados dos dois diferentes modelos foram idênticos. Só com uma grande pequena diferença: A Madeira reduziu o número de deputados.

Sejamos claros: longe de mim insinuar - como tem sido feito em relação aos madeirenses há muitos anos – que os Açorianos são menos democratas que os portugueses do continente. O que me parece é que os comentários parecem padecer de ausência de democraticidade.

O acto eleitoral açoriano é no meu ponto de vista um alerta sobre os efeitos das incapacidades e incompetências da classe política perante a sociedade. Pode até parecer ingrato (mas não se trata disso!!!) mas devo dizer que aquilo que os políticos do 25 de Abril o que têm conseguido com grande eficácia é o afastamento da sociedade das suas responsabilidades inerentes à participação social. E é com algum cinismo que digo que se trata de um feito digno de registo para quem celebra a participação social e cívica como sintoma de liberdade.
Serão os Açores verdadeiramente livres quando mais de 50% dos eleitores – e não falo da população – não foram às urnas? Veremos se o país também saberá elogiar a liberdade conquistada em 1974 nas eleições de 2009.

Ver artigo no Balcão de 24 de Outubro, página 3
publicado por Marco Freitas às 22:51

O que o Marco fez neste post foi uma leitura, em várias possíveis, sobre as eleições naquele arquipélago. De facto, há a destacar a elevada abstenção que se vem verificando nas eleições em Portugal Continental e Ilhas. Estamos perante um problema de representatividade dos eleitos em relação aos eleitores. Porque se verifica tamanha disparidade e distanciamento entre ambos? Na minha perspectiva existe um real jogo de interesses antes e após eleições. O povo ainda não percebeu que deve pedir o livro de reclamações quando as coisas não corem bem. As maiorias absolutas sejam de que partido forem nunca dão bom resultado. Tem de haver uma reflexão séria sobre estas questões e exigir dos políticos as reais medidas dos interesses de quem os elegeu. Sou capaz de concordar que sem maiorias não se faz obra...certo, mas o problema maior reside no facto de a oposição não trazer nada de positivo a quem está no governo. Começa logo mal por aí...A maturidade democrática iniciada em 1974 ainda não chegou...tarda em chegar...a democracia para nós foi o álibi perfeito, e continua a ser, de exigir legalmente dos cidadãos eleitores a validação das incompetências de quem nos governa. Basta, temos de pôr um travão nisto. Há que mudar muita coisa, sem dúvida, mas há que, fundamentalmente, mudar algumas regras democraticamente aceites mas que servem tudo menos a democracia....

Jorge Paraíso (Braga, Nov. 2008)
Jorge Paraso a 5 de Novembro de 2008 às 16:05

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