Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

28
Mar 14

 

 

Sempre olhei para a fotografia no jornalismo como uma peça, quase sempre, complementar e determinante dos conteúdos informativos de uma notícia.

 

Mas, também sei que a fotografia pode ser o centro ou o motivo de uma notícia, como se tem confirmado, por exemplo, no decorrer do anos, com o espaço dedicado pelas agências noticiosas à foto.

 

Embora a tendência ainda assinale uma maior dedicação à informação escrita, há cada vez mais jornais a dar um crescente destaque às fotos, aumentando o seu número por página ou a sua dimensão.

 

A causa principal: a Internet.

 

A Rede Social, o efeito Big Brother, o Jornalista-cidadão, são dimensões da sociedade que têm vindo a alterar a forma de se fazer jornalismo, quiçá a própria essência do jornalismo. A necessidade de afirmação pessoal, semeada pelo mediatismo e pelo reconhecimento viral, tem potenciado o uso da imagem e do vídeo. Infelizmente, também tem potenciado a deturpação informativa e até a mentira.

 

Parece plausível aceitar que esta supra-influência da Internet também se estenda ao fotojornalismo. A fotografia, a imagem, nunca foram tão valorizadas como fonte de informação. E esse poder, como se sabe, pode distorcer. Veja-se o caso da foto do menino encontrado perdido sozinho no deserto, recentemente publicada e disseminada pela rede social. Só depois de largamente percepcionado o erro da foto publicada, com uma perspectiva diferente, provocando uma outra interpretação da realidade – o menino só se tinha afastado um pouco do grupo – é que a verdade foi reposta. Mas será alguma vez realmente reposta? A correcção feita fará o mesmo caminho que a foto inicial?

 

 

 

 

Admito ter mais perguntas do que certezas sobre o papel do fotojornalismo nos dias de hoje, na essência, porque nunca surgiu o interesse ou mesmo a necessidade de me dedicar ao tema em particular.

 

A razão porque resolvi dedicar algum tempo e leitura ao tema, tentando preencher lacunas de conhecimento na área, foi a foto publicada pelo Diário de Notícias da Madeira, no dia 17 de Fevereiro (na versão online) e no dia seguinte (na versão em papel), com o Presidente do Governo Regional “agachando-se” e o Presidente da Câmara Municipal do Funchal aparentando pontapear o primeiro, registada numa iniciativa oficial dos Bombeiros Municipais do Funchal e no âmbito da qual as declarações das entidades oficiais presentes foram politicamente fortes.

 

A minha primeira reacção à foto em questão foi de total espanto, naquilo que, instintivamente, considerei ser um atropelo grave à ética jornalística, porque, em suma, valorizava uma visão satirizada da política actual na Madeira, não correspondendo de todo aos conteúdos e discursos vertidos na notícia, bem como à dignidade do evento a que foto foi associada.

 

Tanto nas redes sociais como na página online do DNM, eu e muitos outros assumimos o desagrado pela opção editorial, num sinal de alerta que a determinada altura, pelo impacto que gerou, poderia ter demovido os editores de publicarem a foto na versão em papel, sem que isso significasse qualquer sintoma de censura ou auto-censura. A decisão editorial foi a de manter a mesma foto na edição em papel, provavelmente num misto de reacção-provocação, ao debate que surgiu em seu redor.

 

Nada tenho contra a foto em si mesma.

 

Parece ser um trabalho feliz do fotógrafo que, propositadamente ou não, consegue satirizar uma perspectiva da política regional presente. Como tal, a sua utilização pública não está em causa. Entendo, no entanto, que existem espaços editoriais próprios para este tipo de fotografia, ou sejam: as revistas semanais com espaços dedicados ao “gozo das figuras públicas”, os jornais partidários, os populistas ou exclusivamente satíricos.

 

Como será consensual, o corpo principal e diário do DN Madeira, salvo informação de que alterou o seu estatuto editorial, felizmente não prima(va) por este tipo de jornalismo ou fotojornalismo. A leitura diária deste jornal regional assim o testemunha.

 

Pelo que, devo dizer, tentei encontrar nas minhas leituras a justificação para a opção editorial do DN Madeira que, como verificamos nos comentários públicos, para alguns rondou a má educação e para outros a falta de ética e até a falta de gosto. Para mim, a razão principal da escolha da foto enquadrou-se na campo da provocação política, fruto do despique alimentado pelo DNM e por uma facção do PSD-M. Assim, via-a como uma anormalidade informativa na norma que marca o dia a dia do Diário.

 

É por causa de situações como esta que, agora como antes, insisto em perguntar se há necessidade de fazer o jornalismo e os jornalistas pagarem um preço tão alto para que as razões do DNM ou de AJJ vinguem?!

 

Até porque, também no plano meramente político, um palco translúcido a vários níveis, a foto pode ser vista como uma falta de respeito pelas instituições representadas e pela corporação de Bombeiros, que deveria ter sido o centro da notícia. Tendo em conta o savoir-être do actual presidente da Câmara do Funchal, creio que nem mesmo ele terá ficado satisfeito com a opção do DNM.

 

Apesar de não passar de um simples observador de bancada da política regional, tenho dúvidas de que a tónica vencedora que a oposição quer manter na Região, com o objectivo de destronar o PSD-M, precise de um jornalismo jocoso. Se precisa ou pretende de alguma forma explorá-lo - como vemos em alguns políticos – que tipo de considerações se deverão fazer sobre a qualidade dos quadrantes políticos com que vamos ter de lidar no futuro?!

 

Mas o que aprendi sobre o fotojornalismo?

 

Ao passar pelo wikipédia e por alguns livros e textos de comunicação social online, pude concluir que o fotojornalismo é “um ramo da fotografia onde a informação clara e objectiva, através da imagem fotográfica, é imprescindível”. Pode até considerar-se como uma especialização do jornalismo.

 

Aprendi que a fotografia nos meios de comunicação tende a ser vista como fonte de informação porque possui uma enorme capacidade para transmitir mensagens, proporcionadas pelo enquadramento escolhido pelo fotógrafo diante do acontecimento.

 

Se aceitarmos que se verifica um “endosso de informação” constante das fotos, tanto nos jornais e revistas como na internet,  há perguntas que se impõem: qual informação subjacente proporcionada pela foto do DNM à reportagem? A intencionalidade daquela publicação terá sido assim tão diferente da que regeu a publicação da foto de Hugo Chaves entubado e que o El Pais teve de a dar como falsa?  Ou mesmo da foto que correu mundo do Sandy a pairar sobre a Estátua da Liberdade, numa junção de duas fotos reais mas acontecidas em momentos e lugares diferentes?

 

 

 

 

 

Manuel Correia, fotojornalista do Jornal de Notícias, numa apresentação sobre o tema afirmava que “o fotojornalista é visto como alguém que se furta ao convencional; ao social  e ao politicamente correctos”, defendendo que, por vezes, há que “fugir à ortodoxia e à normalidade, embora sem desvios éticos e de deontologia para se conseguir desempenhar a missão”.

 

Posto isto, diria que a foto de Jardim vrs Cafofo, foge ao convencional, ao politicamente correcto e até à ortodoxia. Mas, pergunto, foi uma publicação sem “desvios éticos e deontológicos”? Cumpriu a “missão”, na palavras do fotojornalista, cujo trabalho é o de “favorecer a visibilidade do real acontecido”?

 

 “A máquina fotográfica chega a ser tão perigosa como uma arma”, diz Manuel Correia. Definição com que muitos certamente concordarão mas que parece contradizer a essência pacificadora do jornalismo, sustentada nas ideias da transparência, do esclarecimento, da partilha de liberdade... Em suma, o jornalismo, o fotojornalismo também pode ferir... E não fará mais do que isso quando um “repórter tem a sua ‘janela de observação’ na sociedade onde ele próprio se insere e se movimenta, numa relação comunicacional quotidiana”? O especialista não enjeita o papel activo do fotojornalista na sociedade, pois estão “subordinados à lógica dos acontecimentos e, assume, que “também condicionamos essa mesma lógica”.

 

A definição de fotojornalista de Mário Correia não tem zonas cinzentas: “Na essência, somos jornalistas de corpo inteiro, talhados para a notícia, para a reportagem, para a entrevista. Não somos fotógrafos no sentido mais pragmático e clássico do termo, cujo fim é a fotografia em si mesma...” Assim, “a razão de ser da “fotografia de imprensa” é o jornalismo.

 

 

Pessoalmente, penso que a fotografia no jornalismo deverá ter uma vida partilhada com o texto. Pode querer mandar na relação mas se optar por se separar do texto, o seu objectivo e função passará a ser diferente daquele que é a sua missão de informar. Pode ser fonte de informação, notícia, mas deixará de ser produto ou criação jornalística. Fica em causa a essência informativa pois desenvolverá o gosto pela promoção de outras mensagens intrínsecas ao conteúdo registado. Será um facto, um agente criador de notícia, com os riscos daí inerentes. A este propósito, recordo a não-notícia provocada pelo efeito de óptica de uma foto tirada a um navio que rebocava outro nos mares de Canárias e que gerou a informação de um que avião tinha amarado naquele arquipélago (27 de Março de 2014).

 

Para o autor, o que o legitima como jornalista “é que ele escolhe ‘isto’ e não ‘aquilo’ no momento de registar “o que merece ser notado” e de ser notícia. Mas, por seu turno, Michel Guerrin, crítico fotográfico do “Le Monde” é de opinião que “quem decide que fotos se publicam não é quem tem o conhecimento”. Logo, a tendência para descontextualizar a foto da notícia será crescente, ainda por cima se tivermos em conta que por motivos de gestão de custos os jornais estão optar pelo outsourcing na fotografia. Não será o fim do romantismo no jornalismo fotográfico?

 

 

 

No caso em apreciação, embora a espontaneidade aplicada para registar aquele momento, o enquadramento e a perspectiva tivessem sido escolha e proposta do fotógrafo, que disponibilizou o resultado do “clic” à redacção, a opção de publicação foi editorial e responsabilidade máxima do título que a promoveu.

 

E assim, como se costuma dizer:”É o jornalismo. Estúpido!”

 

Marco P. Freitas

 

publicado por Marco Freitas às 16:13

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