Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

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Set 14

 

(Texto publicado no Diário de Notícias da Madeira, 23.08.2014)

 

 

Na senda das reflexões típicas das pausas de verão, acabei mergulhando no “sentimento de urgência” que parece inundar a Madeira, um agora caracterizado pelo signo da “mudança absolutamente necessária”. 

Trata-se de um “sentir urgente” que vem fervilhando na opinião pública e publicada, através de líderes de opinião e de muitos organismos que dão corpo à vida política, económica e social da Madeira.

 

Mais do que um problema, será um estado de alma, quiçá consequência da sobredimensionada expectativa num novo rumo político; das imposições do estado de crise instalado; ou ainda, de uma claustrofobia auto-prescrita por falta de soluções imediatas e milagrosas... Será uma espécie de exorcismo de um passado que, se não me engano,  sorriu durante muito tempo a uns e outros, numa tentativa de negar que o actual estado de coisas foi  precedido de uma tácita aceitação da estratégia seguida, apesar de ter sido aqui e ali polvilhada com discordâncias, quase sempre do foro político ou pessoal.

 

Este estado de alma tem caixa de ressonância no modo de vida actual, muito entregue às redes sociais, à pressão cibernauta e à subsequente informação truncada. Através da rede, mirones politizados tiram partido da experiência social permanente que esta proporciona para forçar agendas públicas e até pessoais a enclausuramentos, num sinal de alta ignorância pois prejudicam “a maturidade necessária para o julgamento moral”, reconhecidamente disfuncional com “cognição muito rápida” exigida pelo novas redes sociais (ver Expresso 31/05/2014, Ciência).

 

Vivemos uma encruzilhada, por norma um terreno onde podem germinar a desorientação e onde os “oportunismos proféticos” encontram receptores fáceis. A chave para as encruzilhadas está na capacidade de reconhecermos os obstáculos a vencer, sendo a ausência de uma estável plataforma de comunicação o mais comum.

 

É neste quadro que olho para a Madeira como um puzzle por acabar. Analisando os conteúdos da dinâmica mediática de vários pequenos “palcos privativos” locais, temo que o “salto de rã”, em tempos sugerido por Braga de Macedo, seja menos do que uma miragem.

 

Não havendo soluções milagrosas nem definitivas, existem, contudo, exemplos de boas práticas de desenvolvimento para levar a sério. O pior é que nas tais versões politizadas em jogo, o revisionismo está em alta. Ora, sem a aceitação do passado como ele realmente foi, esse novo futuro, há tanto tempo almejado, será um rascunho rasurado pelos primeiros ventos de tempestade, consequência certamente indesejável para o processo de evolução que quase todos admitem estar a acontecer. O bloqueio da memória histórica é uma forma de destruir os pontos de contacto que poderiam ajudar a desenhar alternativas e de semear estratagemas para que as diferenças em despique se acentuem até ao ponto sem retorno.

 

A Madeira nunca foi tão debatida. Mas, neste debate, tenho reticências quanto à fórmula determinista como alguns estão a pedir as soluções. O futuro é um lugar garantido mas o percurso pode ser escolhido e deve ser esculpido. Graças às novas tecnologias, nunca foi tão possível referendar a vontade dos madeirenses e a sua opinião, contornando as grelhas impostas pela legislação portuguesa.

 

No “lego” madeirense parecem estar a ser criadas trincheiras para esgrimir modelos ao ponto de se ter perdido a capacidade de comunicarmos socialmente para construir uma ideia global para a Madeira, ou seja, de equacionar as valias de outras perspectivas. Há que ir além dos eventos de cosmética, valorizar e dar oportunidades às soluções que podem vir de fora das fronteiras dos grupos estruturados. E já vi isso acontecer. É possível.

 

Marco P. Freitas

publicado por Marco Freitas às 12:14

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