Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

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Fev 16

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Na Ribeira Funda, onde uma estrada escondida num túnel nos carrega para um sítio praticamente parado no tempo, troquei palavras com uma senhora que nunca tinha saído de lá, que não conhecia o mundo e que não sabia o tempo da sua, certamente, longa vida. Ali, sentimos que as questões sobre o espaço e tempo que habitamos são insignificantes. Vive-se porque se está vivo.

 

Desde essa altura, tenho questionado a ditadura do tempo. Se o tempo pudesse ser cancelado, se vivêssemos sem anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos não teríamos de mudar de ano, nem aniversários...

 

Afinal, procuramos mundos extraterrestres e pulamos de alegria com a descoberta de água em Marte só por uma questão de sobrevivência da raça ou porque estamos cansados de tudo o que nos rodeia, e encurralados ansiamos desesperadamente um novo começo, uma sociedade diametralmente diferente, mais sã, mais equilibrada?!

 

Atribuímos tanto significado à dimensão temporal que as nossas conquistas como humanidade são calendarizadas e somos pressionados a prosseguir como uma evolução social com base na velocidade do imediatismo.

 

Já vencemos dois meses de 2016 tendo como pano de fundo os traços marcantes de 2015. O ano que para mim significou o tempo “de todos os medos”.

 

Os fazedores de opinião foram unânimes em classificar 2015 como o ano da instabilidade, da incerteza e dos medos, conceitos que são a negação da dimensão que o tempo tende a influenciar e a privilegiar.

 

A “cronofobia” do ano deixa bem claro que a esperança para o mundo, tal como o conhecemos, mesmo para um optimista como eu, pode resumir-se à possibilidade de vida noutro planeta.

 

Teórico? Filosófico? Distante do nosso dia a dia? Pelo sim pelo não, tenho tomado nota desta linha evolutiva das perspectivas da humanidade.

 

O conformismo de que é impossível escapar a avalanche terrorista deixa isso bem claro, bem como os revivalismos radicais e os defensores de que já não há “meio-termo” mas tão só tendências de direita e de esquerda. Serei um proscrito por não pertencer a este novo movimento social de ruptura. Eu, para quem não me chocam as rupturas porque

podem ser sadias! É preciso chafurdar no vazio para perceber que os extremos querem criar falsos sentidos de segurança e não a necessidade de mudança evolutiva e dinâmica?

Por isso, porque não experimentamos eliminar a pressão do ontem, do agora e do amanhã? Precisamos do tempo para aprender? Sem o tempo não iremos envelhecer? Não evoluímos socialmente sem idade? Para quê submeter-se ao tempo quando estamos confinados a um limite verticalmente finito e perseguimos fórmulas para a perpetuação no reduto da infinidade? Ou melhor, se acreditarmos noutras dimensões e realidades para além da vida?

 

Enquanto consumimos despercebidos estas dicotomias, pequenos e grandes acontecimentos canibalizaram-se para merecer o maior destaque do mundo dos media.

 

2015 navegou mediaticamente entre os inquéritos políticos à Banca, vencidos no ranking pelos ataques terroristas ao Charlie Hebdo, pelos ventos da crise política grega e pela semente “syriziana” anti-austeridade.

 

Ao contrario de Bava, não consigo dizer que "não guardo memória" destes tempos atribulados, até porque como provou o trabalho do consórcio de jornalistas que fez explodir o Swissleaks está a ficar difícil esquecer, mesmo que o Google já o faça.

 

A humanidade não está protegida. Os problemas causados pela migração baralharam os burocratas da UE que se deram ao luxo de permitir arrastar a crise dos refugiados que começou a ganhar força em Abril, por altura de um naufrágio no canal da Sicília.

 

Matéria que será tema nas eleições do Reino Unido que ficaram publicamente marcadas pela estrondosa gafe nas sondagens, enganadas quanto à inequívoca derrota de David Cameron. A seriedade e a valia das sondagens e empresas do sector foi tema replicado no processo eleitoral português.

 

Menos mediática, a guerrilha política entre os pró e os contra austeridade foi pincelando a agenda, subindo no ranking a espaços, como na altura da rendição de Tsipras, com a consequente demissão de Vourofakis, com os respectivos efeitos colaterais quando em Portugal, também alvo desta batalha ideológica, Costa perde eleições e se insinua ao cargo de Primeiro-Ministro, levando a sua avante com mérito e colossal ajuda da esquerda mais à esquerda.

 

A perplexidade atingiu o País político e do comentário. Afinal, que Nação fustigada pela austeridade valida e confia no Governo que a impingiu tão severamente?

 

Por entre as incertezas politicas, como se adivinhava, o assunto dos refugiados foi perdendo colunas, cabeçalhos e segundos televisivos, recuperando a influência na agenda quando uma foto, extraordinariamente triste, de uma criança imóvel nas ondas de uma praia da Turquia, humanizou a questão dos refugiados. Mas, foi tema vencido no topo mediático fruto da incapacidade da Europa de se unir e resolver cabalmente a questão, com um mundo a assistir de bancada.

 

As eleições portuguesas e a situação política que resultou da ida às urnas encostou este tema internacional, não voltando a ter o destaque merecido, dada a catadupa de eventos nacionais de grande impacto mediático.

 

Tudo porque em Portugal o mundo da política parece que mudou para as próximas décadas. Os refugiados, mantidos em segundo plano na agenda, são chamados à berlinda quando são relacionados com as ondas de ataques terroristas na Europa, com especial incidência nos ataques a Paris.

 

O mundo está voltado do avesso e parece haver muita dificuldade em lidar com isto. A distância oceânica faculta aos madeirenses uma zona de conforto e de ilusão, longe da “soma de todos os medos”....

 

Tivemos um ano marcado por palavras como instabilidade, terrorismo, refugiados, Syriza, lesados do BES, Troika, corrupção na FIFA, problemas climáticos, Banif e colapsos financeiros, escândalo Volkswagen, austeridade. Tudo sintoma negativos amplificados pelo buzz irritante das redes sociais (44% da população mundial usa internet).

 

Nesta moldura negativa e mediaticamente atractiva, a reunião entre Obama e Castro, rasgando literalmente uma página da história e o alerta do Papa sobre a existência de uma “guerra mundial segmentada”, passaram despercebidos.

 

Também houveram histórias por cá nesta ilha meia perdida no Atlântico. Apesar de décadas de governação social democrata, o PSD-Madeira vendeu eleições, por um fio, e passamos a viver sob o signo da mudança, numa sensação de alguma volatilidade, acompanhando a situação mundial, com sinais de que as coisas estão por se ir resolvendo: a da mobilidade dos transportes (ferry e C&), a do novo hospital, a dos portos (cais 8 e C&) e da comunicação social (JM MADEIRA e C&).

 

Da soma de todas as partes, há duas conclusões que me assustam: a de que ser moderado tornou é démodé e de que vigora um conformismo traduzido no conceito de que não temos como fugir ao medo e aos caos.

 

Acredito que a necessidade que faz mover a humanidade e que forma interesses e objectivos. Sem a medida do tempo, a lei da necessidade deve ser a de se viver bem.

 

 

publicado por Marco Freitas às 12:08

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