Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

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Jul 13

 

 

O caso da “Chathan House Rule” e da confusão sobre a conferência para discutir a “reforma do Estado” é só mais um exemplo, entre muitos, da constante dialéctica negativa que alimenta a relação entre governo/partidos do arco da governação e comunicação social.

 

O interesse público e dos portugueses é quase sempre o principal argumento base de ambas as partes, para defender as suas posições num processo de debate público sobre determinado tema.

 

As questões da liberdade de imprensa e de expressão, da legitimidade conquistada no voto, da prestação de contas ao eleitorado, do uso e abuso de poder, dos lobbies, entre outras que surgem ocasionalmente, alimentam o movimento destes dois mundos num tabuleiro que começa a assemelhar-se às batalhas de trincheira do inicio do século passado.   

 

O fundamental, do meu ponto de vista, é saber se o denominado “público” ou a população em geral, formalmente dimensões diferentes, serão beneficiados com o actual estado de coisas?

 

É porque esta espécie de jogo do gato e do rato, de esconder ou andar à procura de informação escondida tem contornos de atestado de menoridade ao papel formativo e informativo do jornalismo.

 

Além disso, quem investe tempo nestes cuidados de esconder ou de procurar polémicas, está certamente a desligar-se da envolvente para se ater ao particular e aos casos.

 

Teremos uma população e um eleitorado esclarecidos? Tenho dúvidas, já que as notícias, o produto final dos meios de comunicação social, são cada vez mais truncadas, como consequência da rede complexa em que o sector, de uma forma geral, se envolveu.

 

A relação de proximidade adquirida ao longo dos anos entre o sector da politica e os media, com visível impacto no alinhamento noticioso, é a principal causa do estado dúbio da informação veiculada. Talvez só ao nível do jornalismo desportivo se encontre tamanha cumplicidade com óbvias marcas no rigor informativo. Por norma e ao contrário do que sucedia há alguns anos – e talvez por ter passado também pelo jornalismo – actualmente a minha primeira atitude  é de desconfiar de uma notícia politizada e só depois de claramente confirmados os factos confiar na informação.

 

Os factos e artefactos, o tempo, as tricas e toda a volatilidade que tem caracterizado o nosso universo político é a razão fundamental para não dar por adquirido a informação presente numa notícia do foro estritamente politico. A somar a isto, a insistência da comunicação social em dar espaço e dimensão à politiquice, entrando nos jogos de caserna, quer para manter audiências quer para conseguir fontes preferências, não ajuda à credibilidade cada vez mais necessária ao sector e que, infelizmente, vai escasseando.

 

 

Um governo ou um partido têm a responsabilidade e o dever de manter a população informada dos seus actos de governação. O estilo dessa comunicação dependerá, certamente, de quem está nesse governo ou lidera os partidos. O que eu desconheço é a existência de algum dogma, apesar das pesquisas efectuadas, que afirme que um Governo, seja ele qual for, tem de comunicar todos os dias com os meios de comunicação social. (Depois de ter escrito isto, o Ministro Poiares Madura inaugurou o recurso a briefing diários, logo suspensos com a crise politica).

 

A experiência de assessor de informação numa empresa privada será certamente diferente da de um colega da comunicação num governo ou num partido. As solicitações serão em menor número e, provavelmente, com nível de risco mais controlável. Ainda assim, estou por aprender a ciência matemática que ensina que o facto de dizer algo todos os dias aos mass media é uma forma eficaz de comunicar e de passar as mensagens correctas e verdadeiras sobre a actividade de uma governação.

 

Mudando a perspectiva, coloquemos a questão agora do lado da imprensa, cujo principal contributo deveria ser o de esclarecer e não o de nublar. Em que medida é que o jornalismo está a cumprir com os seus desideratos ao impôr “agendas” ao governos e aos partidos? Fazem-no por várias razões, algumas das quais em conluio com o universo politico. Mas, em que ponto deste percurso que tem sido o desenvolvimento do jornalismo pós-25 de Abril se esqueceram que a ponderação pode gerar melhor informação, mais profunda, mais séria e sem dúvida alguma mais atractiva para os públicos alvos de cada meio na comunicação social?

 

No emaranhado tabuleiro em que jogam, os jornalistas perderam algures a capacidade de hierarquizar os fontes, segundo a sua importância, eficácia, credibilidade, segurança e correspondência de factos. Na minha opinião amadora, esta será uma das razões porque os jornalismo se tornou tão esquivo e inverosímil, colocando–se a jeito dos lobbies e das intencionalidades.

 

Hoje, há cada vez menos jornalistas e estudiosos do sector que conseguem dizer que o jornalismo tem a qualidade dos outros tempos. Chegamos a um ponto que até parece corriqueiro os menos familiarizados com o meio dizerem e detectarem os problemas e as causas do descrédito jornalístico. Já a razão pela qual tenho dificuldade em entender porque não querem fazer um reset e definir um novo percurso para o jornalismo escapa-me. Quais os riscos associados que impeçam uma renovação profunda do sector?

 

As redes sociais e o online estão a alterar o modus operandi e vivendi das relações, criando novas formas de se ser e estar. Aquilo que era um meio one-to-one é quase uma rede de comunicação de massas. Há quem já o classifique como tal e outros que se recusam a assumir esse impacto pois muitas das informações móveis só encontram dimensão supra-social quando transmitidas pelos media tradicionais. Mas, o certo é que este novo instrumento veio abrir brechas na relação privilegiada entre os jornalistas e os políticos, já que outros se intrometeram nessa relação. Há um terceiro elemento na relação e, neste caso, é nem mais nem menos o próprio público que agora comunica entre si. Falta credibilidade a este mundo de notícias home made. É um facto! Mas, lá chegaremos...

 

Como acontece muitas vezes no combate militar, é preciso saber retirar, reorganizar os exércitos, para voltar ao combate em melhores condições. No mundo da comunicação é preciso saber fazer silêncio para ouvir, em particular num mundo em que todos querem falar e acham que o que têm para dizer deve ser ouvido pelo maior número de pessoas possível.

 

Os escândalos que têm acontecido no último par de anos na comunicação social não constituem particular surpresa e são o reflexo mais fiel do tudo o que foi referido. Não aconteceram por acaso. Os casos Bloomberg, Rupert Murdoch, Relvas, só para citar os mais badalados por cá, colocam em cheque a comunicação social de países como os EUA, a GB, a Austrália e Portugal.

 

 

Em todos, sem excepção, note-se a teia de envolvidos: políticos, empresários e meios de comunicação social (como mecanismo intermediário).  Numa determinada perspectiva, até parece que a dimensão de “intermediário”, características dos meios de comunicação social, mudou-se para outro mundo, ou seja, passou como que a ser uma espécie de limbo onde e através do qual se faz mover, conectar e influenciar tudo o resto, ao modo de uma cidadela onde se joga a diplomacia do mundo, onde nada acontecendo tudo se desenrola...  Assim, neste palco de nevoeiros, o produto final de cada meio de comunicação social será uma cortina para dar cor e rosto a muitos outros mundos.

 

Há uma pergunta que tem sido evitada: a relação de um governo com a sua população ainda precisa da comunicação social!? Este é um paradigma que começa a alterar-se porque há cada vez mais instrumentos ao dispor dos governos para comunicar com o eleitorado de forma directa. Para um Governo ou partido, será a opção correcta fazê-lo? Ainda não há condições para isso. Por isso é que precisam da credibilidade mediática dos meios de comunicação social, enfim, de uma terceira parte que fazendo a ponte deve contribuir para a melhor governação. O que é diferente, note-se, de fazer a mera retransmissão das mensagens do governo, porque o sentido critico que o jornalismo promove é fundamental na condução das politicas de desenvolvimento de um País. Mas, onde se encontra esse sentido crítico? É que se perguntar não ofende, não saber perguntar é meio caminho andado para a ignorância e para a desinformação. É o caso gritante de tantas entrevistas ou conferências de imprensa que vemos. Na sua generalidade são pouco mais do que um espectáculo pré-definido de perguntas e respostas estudadas e preparadas para obedecer à lógica da agenda mediática.

 

É atroz a forma como notamos o posicionamento de muita comunicação social neste Portugal. Alguém tem dúvidas de que a comunicação social é co-responsável pelo momento em que vivemos? Estranho a vontade de querer participar e influenciar os destinos de Portugal e perante a actual conjuntura o comportamento de que o sector é alheio ao que se foi passando desde há algum tempo a esta parte. Isto não é ser-se socialmente responsável.

 

Diz o ditado que não devemos confundir a árvore com a floresta... Temo que no jornalismo a realidade seja outra. Hoje em dia é fácil seleccionar os meios de comunicação com qualidade e dentro deles os jornalistas que realmente contribuem para essa qualidade. A consequência é lógica: queda nas audiências, nas vendas e na publicidade. E a culpa não é só da crise, da falta de dinheiro, dos lobbies.... 

publicado por Marco Freitas às 16:28

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