Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

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Jul 13

 

 

 

A organização e o debate promovido pelo Governo da República sobre a reforma do Estado, que decorreu em meados de Janeiro de 2013, gerou polémica junto da comunicação social e do seu restrito universo paralelo de comentadores, pelo facto da Organização ter recorrido às regras “Chathan House Rule”.

 

Esta polémica, para além do caso em si mesmo, levantou e levanta a habitual discussão da política de comunicação dos governos e dos partidos com o eleitorado e também da relação destes com os jornalistas.

 

Afinal, porque é que comunicação política dos governos é tão problemática e complexa? Até que ponto é que, quer os políticos quer os jornalistas são co-responsáveis pela criação de “histórias públicas”, objectivamente influenciadoras do pensamento global e da agenda mediática? Qual tem sido o efectivo contributo para o processo de esclarecimento público?

 

Estas são algumas das perguntas que têm gerado reflexão no sector.

 

Reflexão que não refreia o facto de, actualmente, se medir a eficácia e sucesso de uma governação pela sua capacidade de comunicar, como que dando primazia à forma e não conteúdo, enfim, à política espectáculo.

 

Nos tempos mais recentes, no nosso País, a acção comunicativa dos Governos tem sido praticamente dividida em dois tipos de paradigma de comunicação política: a promovida pelo ex-Primeiro Ministro, José Sócrates ( e seu Governo), caracterizada por uma excessiva gestão e preocupação com as relações com os media, e o do Governo de Passos Coelho, nos antípodas do governo que veio substituir.

 

Nenhuma das estratégias se pode arvorar na mais correcta, na essência,  porque ambas precisaram de se adaptar ao longo do tempo, de corrigir parâmetros de actuação, sendo certo que a segunda é a estratégia que mais erosão sofre, precisando de mudar mais rapidamente, pois decorre da tendência para menorizar o papel dos media.

 

O caso da conferência organizada por Sofia Galvão, da qual muitos poucos já se recordarão, despertou esta análise essencialmente pelo ruído mediático que despoletou, remetendo para segundo plano o valor do seu conteúdo.

 

A polémica foi, felizmente, “sol de pouca dura”, porque os mais esclarecidos souberam, de forma digna, chamar à razão os mais exaltados, com destaque, entre os primeiros, para a postura do Jornal de Negócios.

 

Enquanto rascunhava pensamentos sobre esta matéria fui deambulando por considerações sobre tantos aspectos que tive dificuldades em definir uma hierarquia de importância no processo analítico que se seguiu.

 

Começando pelo caso concreto da conferência, considerando o mote da mesma, as valias que poderia trazer ao País a vários níveis: a nota principal que registei,  - talvez a mais marcante - , é a de que na memória dos portugueses sobressairá a discordância sobre a forma como a organização pensou a cobertura jornalística do evento e subsequente discussão.

 

Assim, é de facto lamentável que uma iniciativa positiva como aquela não tenha obtido outro destaque e que muito dos autores mediáticos e comunicação social tenham preferido sublinhar a polémica sobre o acesso dos jornalistas ao evento.

 

Por parte da Organização, percebe-se a tentativa de valorizar a participação dos convidados, promovendo alguma privacidade, deixando caminho aberto para um debate franco e até polémico, muito provavelmente revelador e inovador.

 

Mas, num mundo tão mediatizado a relação com os media deverá merecer outros cuidados!

 

 

A organização não está isenta de culpas já que o facto de não ter sido firme e clara na informação sobre os objectivos da opção CHRule facilitou a vida àqueles que salivam por uma boa polémica. Mais, aparentemente nem todos os meios de comunicação social foram devidamente informados sobre os procedimentos.   

 

Ora, isto configura algum amadorismo, contradizendo o espírito do conceito da CHR, dando de barato que o erro pode ter sido de comunicação interna entre Governo e departamentos responsáveis pela comunicação.

 

Isto diz-me que os benefícios da CHR, apesar de interessantes e úteis, precisam um pouco mais do que amadorismo para a sua boa aplicação. As regras não funcionam só porque existem ou porque são aplicáveis exactamente como estão delineadas no papel. É preciso discernimento para melhor aplicá-las e adaptá-las às diferentes situações.

 

Tudo deveria ter sido medido antes de se procurar adoptar tal medida, em particular em tempos que por serem difíceis está a tornar-se comum questionar a qualidade da nossa democracia ( Isto foi escrito ainda antes dos últimos eventos políticos desde a demissão de Vítor Gaspar).

 

O modelo CHR não me parece desadequado para a conferência e o debate promovido. Contudo, deveria ter sido precedido de todos os cuidados envolvendo uma das parte mais interessadas no processo do seu desenvolvimento: a própria comunicação social (com a colaboração de entidades como a ERC ou mesmo o sindicato de jornalistas).

 

Antes de abordar a questão do ponto de vista da imprensa, gostava de pontificar umas notas sobre os comentadores (residentes) que nessa função dita independente, convivem com a realidade dos meios de comunicação social.

 

Um convívio que vive da sua relação de proximidade, de utilidade para as partes e do papel que tal relação desempenha nas audiências.

 

Talvez por força das circunstâncias, o papel do comentadores começa, aliás, a parecer-se ao dos “incitadores” oficiais, ao de criadores de polémicas, muito por causa da sua profusa ligação partidária.

 

Ora, também neste caso da CHR, os comentadores anti-governo cumpriram com o seu papel “fundamentalista” oferecendo um forte contributo para a confusão criada.

 

Por razões de diferente ordem, sobre as quais reflectirei num trabalho a propósito, chego a perguntar-me pelo efeitos deste mundo paralelo da comunicação social, em particular na própria missão jornalística.

 

A intervenção dos comentadores entronca com a questões da informação e da pressão politica e partidária na comunicação social, tema muitas vezes ignorado pelos meios de comunicação social e jornalistas, atrevo-me a afirmar, por mera conveniência do status quo ou pela utilidade  que advém do acesso privilegiado a fontes preferenciais.

 

Finalmente, quanto ao papel da imprensa nesta questão, uma nota preliminar para dizer que na minha opinião a comunicação social deveria ter participado activamente no debate, aos mais diversos níveis de representação, e não ter sido remetida para o seu  habitual papel de veículo de informações e acontecimentos.

 

Depois, fez bem em colocar o dedo na ferida na má organização.

 

Dito isto, a intervenção dos jornalistas, de uma forma geral, roçou aquilo que não se pede à função, particularmente em tempos em que a inteligência e o bom-senso devem prevalecer. Por outras palavras, alguns meios e muitos jornalistas tiveram uma postura medíocre, quase ignorante, na medida em que de forma extremamente apaixonada criticaram a opção, esquecendo as outras tantas vezes em que o modelo é seguido (na íntegra ou em parte) em eventos organizados por entidades públicas ou privadas.  

 

Neste ponto, senti inclusive que o seu posicionamento chegou a ser hipócrita, já que ao atacar a estratégia seguida pela organização do debate não assumiram a sua presença em eventos de modelos idênticos.

 

Roçando o fundamentalismo e sem dúvida o sensacionalismo, os jornalistas simplesmente amuaram e, infelizmente, embarcaram na propaganda de feira, (por ser regateável) com o fito de obter os seus objectivos.

 

Não foram profundos. Não me recordo – e se aconteceu, aguardo a referência – de ver alguém do jornalismo a pedir ou a defender que os jornalistas, mais do que convidados a acompanhar o evento deviam ser participantes. Ou melhor, podendo participar e, respeitando as regras, dar nota pública do evento.

 

Este caso específico é só mais um exemplo da complexa realidade da comunicação dos governos com a opinião pública e, directa ou indirectamente, com os meios de comunicação social.

 

 

 

Destaques CHRule

 

. No debate sobre as “Funções de Estado”, em meados de Janeiro os jornalistas só podiam gravar as intervenções iniciais e de encerramento.

 

. Foi dito por Sofia Galvão:

“ Estas são as regras que um debate desta natureza teve que impor e que foram percebidas e aceites pela comunicação social”.

 

. Assunto era considerado marcante para a agenda política.

 

. Várias jornalistas consideram não estarem reunidas condições necessárias para a cobertura.

 

. “A direcção de informação da Antena 1 não recebeu previamente qualquer informação da organização sobre as condições de registo de declarações dos participantes na conferência “Pensar o Futuro – Um Estado para a Sociedade”.

 

. Fonte oficial da Lusa afirmou: “as condições impostas colocam em causa o trabalho de informação usual de uma agência de imprensa, que normalmente usa citações de fontes identificadas. Não havendo a possibilidade de citar fontes, o trabalho acaba por ficar muito limitado. Esperamos que estes casos não se  repitam, se não ficamos limitados na nossa actuação como jornalistas”.

 

  . Joaquim Vieira, presidente do Observatório de Imprensa, diz que é um exagero classificar a decisão da organização como um “atentado à liberdade de imprensa”.

 

. Joaquim Vieira diz ainda : “ Se o Governo organiza uma sessão que tem a ver com o futuro do país, e sendo o Governo sustentado por todos nós, contribuintes e cidadãos fez pouco sentido”.

 

. ERC reprovou entraves aos jornalistas numa deliberação a propósito de uma queixa do Sindicato dos Jornalistas, em 21 de Junho. 

publicado por Marco Freitas às 10:23

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