Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

16
Set 11

 

 

 

O debate madeirense no último Expresso da Meia-noite, da SIC Notícias pode ter sido um momento decisivo para os partidos que estiveram presentes e concorrem às eleições regionais de Outubro.

Mas, antes de abordar o desempenho dos representantes dos partidos, uma nota prévia sobre o programa e os seus condutores.

A Madeira tem estado no epicentro da política nacional, servindo de bode expiatório para os diversos partidos nacionais passarem as suas mensagens políticas e por causa da recente revelação do aumento exponencial da dívida pública regional. Tal não acontece nos Açores por várias razões, não sendo a sua dívida mais baixa a principal. Na verdade falar da Madeira é mais mediático e polémico por mais que Carlos César tente brilhar ao mandar piadas provocatórias a Jardim. Também não é o facto dos partidos da oposição estarem em vias de derrotar o PSD-M. É voz comum que os sociais democratas, quanto muito, perdem a maioria absoluta. Portanto, o objectivo de todo  este ruído à volta da Madeira corresponde a uma inutilidade incrível. Com uma excepção: está a agudizar os preconceitos entre os portugueses do continente e da Madeira.

Pode não ter sido propositado mas o que é verdade é que com a ajuda da comunicação social (por falta de visão) passou a ideia de que a Madeira é uma das principais culpadas pela divida pública nacional, chegando ao cúmulo de, pasme-se, potenciar a ideia de que é tanto responsável pela presença da Troika como pelo aumento da austeridade protagonizado pelo Governo da República.

Por isso, a oportunidade do debate não podia ter sido melhor.

Os jornalistas que conduziram o debate deram uma lição de isenção que muitos outros meios de cá e de lá não têm sabido manter na abordagem à questão da dívida.

Espero que o programa tenha tido muita audiência porque a clarividência mostrada pelos jornalistas ajudou a colocar a questão no seu devido lugar: como um acontecimento inesperado pela sua dimensão, de difícil solução e à imagem do País.

 

Quanto aos partidos e seus representantes, o que eu vi foi mais do mesmo, com algumas nuances. Vamos por partes.

Guilherme Silva, a voz do PSD-M, partia em desvantagem pelo que estava implícito no debate e pelo facto de ter de defender uma política praticamente indefensável. Para além disso, os restantes presentes era todos adversários em toda a linha.

O discurso escolhido, a postura aguerrida, o recurso ao histórico e a capacidade de bloquear algumas das intervenções dos adversários permite concluir que Guilherme Silva atenuou a desvantagem que levava de partida, chegando a espaços a utilizar muito bem as diferenças entre os adversários, nomeadamente em relação à LFR (PS e CDS) ou na questão dos valores exactos da dívida quando pedia para explicarem cabalmente as contas que faziam (como aconteceu com o CDS) deixando no ar a superficialidade das críticas.

António Filipe, representando a perspectiva do PCP, manteve um registo low-profile, até construtivo, procurando colocar-se na posição dos madeirenses, para pescar votos à esquerda mas também junto dos inconformados. Esteve particularmente bem quando f alou da LFR apontando o dedo ao PS e ao CDS. Parece-me que o deputado comunista ajudou o PCP-M a conquistar votos. Até porque se o debate era num canal nacional o facto é que o público mais importante estava na Madeira. E se Guilherme Silva tinha como objectivo combater a intoxicação pública contra a Madeira - um objectivo que deveria ser de todos - já os restantes visaram exclusivamente o ataque político a olhar para as eleições.

Carlos Pereira, representante dos socialistas, ponta de lança do partido para as matérias económicas, teve neste programa uma oportunidade única para provar as razões do PS Madeira. Habituado ao ambiente televisivo e aos palcos esperava-se um deputado super aguerrido, manipulador do tempo e do debate, impondo as suas razões. Não foi isso que vimos. Utilizou menos números que o CDS e não foi convincente, teve pouca iniciativa. Esteve cuidadoso, parecendo maduro no debate, contrastando com a prática na Região. A mensagem dos socialistas não passou porque ainda tem dificuldade em assumir-se como representante de um partido. O que nos leva a questionar a ausência de Serrão nesta oportunidade de se mostrar líder. Acredito que muitos esperavam um Carlos Pereira mais truculento. Por se ter controlado, surpreendeu.

A grande decepção e os maiores reparos são para o CDS e para a postura de José Manuel Rodrigues. Se é facto que sobre Guilherme Silva caía grandes desvantagens não é menos verdade que impendia sobre Rodrigues o chapéu da actual governabilidade do País podendo isso ter condicionado de alguma forma o seu estado de espírito. Certo é que a estratégia seguida, sustentada nas cábulas e nos números, caiu por terá quando em vários momentos o CDS foi questionado sobre a sua forma de defender os madeirenses e a autonomia. Aliás, as contas feitas a correr pareceram mal, foram um erro de comunicação facilmente desmontado por uma frase óbvia: "mas que contas são essas".... JMR não foi convincente.

O CDS perdeu votos naquele debate. Os indecisos (certamente na sua maioria do PSD) com intenção de votar CDS recuaram. A campanha feita na RAM, sobejamente construtiva, foi colocada em causa por uma postura que denegriu a Madeira. Foi interessante reparar que António Filipe soube fazer a separação entre poder e madeirenses enquanto que JMR não. Particularmente quando se sabe que está a crescer uma ideia muito negativa sobre os madeirenses... O deputado esqueceu como isso cai mal, esqueceu o efeito LFR no seu partido pela postura indecisa. Um dos  grandes desafios para o CDS Madeira era precisamente o de saber compaginar o facto de ser governo nacional e oposição ao mesmo tempo.

O CDS Madeira não sabe o que quer. Ou melhor, se sabe não o transparece e ninguém gosta de votar num partido que não se declara.

Rodrigues privilegiou o ataque fácil às propostas e soluções, muitas apresentadas na RAM. Preferiu ser um "deputado nacional" a ser político regional. Não soube nem conseguiu reagir às bocas de Guilherme Silva e repetiu a ideia dos esqueletos no armário sem concretizar. É verdade que as expectativas eram elevadas e, quando assim é, muitas vezes acabam goradas. A opinião é minha mas também de muita gente que seguiu o debate. Muitas, em conversa nem se referiram ao JMR. Pior do que isto....

 

O CDS Madeira tem de responder internamente a algumas perguntas para se poder apresentar convicto no combate político. Eis algumas:

- Quer ou não quer ser Governo na RAM?

- Para um partido de governo nacional basta ser segundo ou terceiro?

- Faz parte do leque de partidos da esquerda que assumiram que o único objectivo é retirar a maioria absoluta ao PSD-M?

- Num caso de crise política na RAM de que lado estará?

- Querendo influenciar os destinos da Madeira, não era melhor assumir-se como partido capaz de fazer pactos com o PSD-M?

 

Acredito que se o CDS soubesse posicionar o partido como potencial parceiro de Governo, assumindo-se como “controler” do PSD, alcançaria outra expressão nas urnas.

 

Marco Freitas

publicado por Marco Freitas às 10:10

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