Comunicar pode ser fácil... Se no tempo que a vida nos permite procurarmos transmitir o essencial, desvalorizar o acessório e contribuir, num segundo que seja, para que a mensagem se assuma como tal e não como um universo de segredos...

26
Jan 11

 

Estas eleições presidenciais e os respectivos resultados deixaram mais questões no ar do que proporcionaram respostas aos intervenientes políticos e eleitores, quer no Continente quer na Madeira. Tivemos muitos candidatos mas uma campanha extremamente pobre no conteúdo, centrada em questões pessoais, na exploração do escândalo, para a qual muito contribuiu a comunicação social.

 

Cavaco Silva foi o vencedor indubitável mas na noite do discurso de vitória, mais do que acalmar os ânimos que se exaltaram na campanha, manteve um sinal de incógnita em relação ao seu relacionamento com aqueles que lhe fizeram oposição na batalha politica.

 

Em termos de partidos, aqueles que apoiaram Cavaco e o PCP podem sentir-se mais satisfeitos com as suas apostas. Contudo, no caso específico do PSD, Pedro Passos Coelho, apesar do seu discurso tranquilo e de estadista, muito dificilmente evitará pensar na melhor oportunidade para forçar a queda de Sócrates.

 

Do lado daqueles que apoiaram Alegre – que deverá aproveitar o mote para ir deixando a politica activa  - as interrogações são maiores.

 

Acho interessante os partidos e os seus líderes afirmarem que não se podem tirar ilações destas eleições para um cenário de legislativas, usando como argumento que o que esteve em questão foi a votação numa pessoa. Se assim fosse jamais um partido se assumiria como apoiante de alguém, impondo disciplina partidária e até cedendo apoio através da sua máquina de propaganda. Mais, também não precisariam de encontrar razões para a derrota para um candidato que não é seu. Honra seja feita, neste caso, ao PCP, que assume na integra a colocação de um candidato e o seu apoio total.

 

Já o PS e o BE têm algumas lições a retirar desta ligação que dizem nunca ter existido. Afinal, o que acontecia era simplesmente que apoiavam o mesmo candidato. O pior, para além da diminuta percentagem que o seu candidato obteve – não tendo alcançado sequer os mínimos da tradicional base de apoio dos dois partidos – é que nenhum deles faz a mínima ideia de qual foi o seu contributo para os quase 20% de Alegre e para quem foi os votos que deviam ter sido seus. É aceitável, no entanto, presumir que foi Fernando Nobre o maior depositário daqueles que não conseguiram entender e aceitar a aliança tácita entre PS e BE, com Alegre no meio. Pelo que, o “grito de vitória” de Nobre, para além de desajustado, muito pouco se ficou a dever à sua campanha. José M. Coelho pode também ter colhido alguns deste votos do descontentamento.

 

Na noite dos discursos, Louça engoliu um sapo muito grande porque o paladino da verdade e o lustroso orador tossiu como se tivesse a garganta seca... Já Sócrates, hábil, tentou dizer que não se passou nada de anormal já que os portugueses confirmaram a regra e deram segundo mandato ao presidente em exercício, levando a crer que esta pseudo-estabilidade deve ser transposta para a legislatura. Até achei interessante a jogada não fosse ela dissonante com a ideia de que não se devem misturar as presidenciais com as legislativas. Lá foi prometendo leal cooperação como se tivesse sido isso o que se passou durante a campanha. Não me recordo de ver um Governo tão envolvido numa campanha presidencial, incluindo o Primeiro-Ministro, através de declarações vagas sobre o candidato Cavaco Silva e as suas mensagens eleitorais. Carrilho e Vitorino não tiveram pudor em lembrar que é óbvio que o PS tem de tirar ilações desta derrota. Carrilho recordou que o partido demorou a decidir que apoiaria e Vitorino sublinhou a segundo derrota consecutiva do partido para eleições presidenciais. Aliás, vistas bem as coisas, depois da maioria absoluta, José Sócrates não teve mais nenhuma vitória eleitoral contundente. Tem sido sempre a descer...

 

Parece que os resultados não foram claros para muitos políticos, comentadores e associados dos adversários de Cavaco Silva. Objectivamente, só houve um vencedor nestas eleições, todos os outros foram derrotados, quer pela votação que tiveram quer pela não cumprimento do objectivos que traçaram para a campanha, sendo o mais evidente o de obrigar à realização de uma segunda volta.

Cavaco ganhou contra as candidaturas negativas... Esse é um facto interessante de realçar. Aliás, nunca cheguei a compreender as opções e as mensagens de Alegre e associados, apesar de acompanhados por especialistas do marketing politico. Desde quando é que um País massacrado pela desgraça, tristeza e desespero, receberá de braços abertos campanhas negativistas e de ataque pessoal? Incompreensível.

 

 

Na Madeira

 

Apesar de se ter tratado de uma eleição nacional há alguns pontos interessantes nas votações registadas na Madeira, com o caso Coelho a tomar a dianteira. A adesão de apoiantes à sua candidatura – que muitos não levaram a sério – e depois a confirmação como candidato foi só o preâmbulo do que se viria a passar.

 

Primeiro, a meia surpresa de Coelho ter ficado à frente de Alegre, segundo, a surpresa de ter vencido três concelhos e ter obtido uma votação estrondosa no global da Região ( e no todo do País). Há ainda uma outra meia surpresa: a baixa votação em Cavaco.

Falo em meias surpresas porque algumas destas eram previsíveis para quem acompanha com atenção a política, para quem escuta atento o que se passa no Região e para quem não ignora o estado de coisas a que chegou o nosso universo partidário.

 

Coelho não foi vencedor, apesar de ter sido uma derrotado com honra. Porém, as suas vitórias parciais e o total na RAM merecem todo o respeito e uma análise ponderada. Mas, também aqui, como no espaço nacional, as interrogações são maiores do que as respostas.

 

Terá sido esta votação uma mera expressão de descontentamento? Com quem: o PSD-M, o PS-M e o BE? Terá sido o efeito de ter um conterrâneo numa eleição nacional? Um voto ocasional de muitos que pensaram que outros jamais votariam em Coelho, somando o impensável? Enfim, ou será a confirmação definitiva de que o fenómeno PND na Madeira já deve ser visto de outra forma, ou seja, para além da habitual palhaçada que fazem brilharete nos media? A este propósito, até que ponto é que a comunicação social continua a funcionar como caixa de ressonância do PND e sua política, hiperbolizando a sua representatividade?

 

Finalmente, onde está e como é que ficaram os partidos que apoiaram Alegre na Madeira? A sangria politica que têm vindo a sofrer terá continuidade? A tal plataforma na convergência terá pernas para andar, agora que o PND poderá querer aventurar-se sozinho?

 

Vamos por partes, sem esquecer a análise ao papel da comunicação social nestas eleições.

publicado por Marco Freitas às 15:50

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